Minha Mãe, Minha Mãe!
Minha mãe, minha mãe! ai que saudade imensa,
Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.
Caía mansa a noite; e andorinhas aos pares
Cruzavam-se voando em torno dos seus lares,
Suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
Era a hora em que já sobre o feno das eiras
Dormia quieto e manso o impávido lebréu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
E a Lua branca, além, por entre as oliveiras,
Como a alma dum justo, ia em triunfo ao Céu!...
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,
Vendo a Lua subir, muda, alumiando o espaço,
Eu balbuciava a minha infantil oração,
Pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
Que mandasse um alívio a cada sofrimento,
Que mandasse uma estrela a cada escuridão.
Por todos eu orava e por todos pedia.
Pelos mortos no horror da terra negra e fria,
Por todas as paixões e por todas as mágoas...
Pelos míseros que entre os uivos das procelas
Vão em noite sem Lua e num barco sem velas
Errantes através do turbilhão das águas.
O meu coração puro, imaculado e santo
Ia ao trono de Deus pedir, como inda vai,
Para toda a nudez um pano do seu manto,
Para toda a miséria o orvalho do seu pranto
E para todo o crime a seu perdão de Pai!...
(Excerto do Poema «Aos Simples» , Guerra Junqueiro)
As Eiras foram, antes do exôdo migratório, um dos espaços centrais da vida desta comunidade. De alto abaixo, pelo mês de Julho, alinhavam-se as medas de centeio, ficando a meio uma larga avenida onde se procedia à malha manual. Espaço comunitário, gerido pela Junta de Freguesia, terminada a faina estival, em domingo certo, a seguir à missa, procedia-se à arrematação, para arrendamento como lameiro de pasto até às malhas seguintes. Foram outros tempos. E agora são outros, e nestes outros parece que andámos muito para trás no que respeita a estética visual. Se fosse um espaço privado, diríam que cada um naquilo que é seu faz o que bem entende. Mesmo aí não será bem assim. Mas quando se trata de um espaço público, como é o caso, há a lamentar que os eleitos do povo façam assim a gestão deste espaço. Obviamente os utilizadores gerem o espaço de acordo com os seus interesses e de acordo com o contrato celebrado.
Antes era assim
Agora é assim
Antes
Depois
Estão de parabéns os proprietários e os artistas que recolocaram o fato que a casa merece.
Oh as casas as casas as casas
(Republicação de um post de 14-8-2009)
Os pais (e os avós) gastam boa parte das suas vidas com os filhos, sobretudo na sua meninice. E vão aqui e além para que possam brincar.
Este parque de Vilar Maior, uma obra pequena, foi das mais importantes que por aqui se fizeram. Acabaram com ele em troca de coisa nenhuma. E na vila, nesta época de Verão há muitas crianças que, com um parque, se conheceriam umas às outras e atrás delas os pais que criariam relações e estreitariam laços. E quereriam voltar no ano seguinte, os pequenos e os grandes. É preciso ver a importância das pequenas coisas.
Os personagens das fotos, gente da casa dos trinta, vão gostar de se ver.
Fotografia de Manuel Fonseca
Um rosto, entre outros, que este ano não vi. Não sei porquê mas fico incomodado cá por dentro quando não vejo quem tem por hábito estar por cá nos dias da festa. Na Vila não é preciso ser 'importante' para merecer consideração. - Então, como vais Cândida? Então, mais uma vez por cá! E acho eu que toda a gente ficava contente por vê-la e, vendo-a, vinha-nos à memória o marido dela o António que de alcunha era o Craveiro Lopes e que fazia pela vida à sua maneira desde que não exigisse pegar na enxada: vender sardinhas, improvisar jogos na festa com maços de tabaco, trabalhos em que se tocasse em dinheiro. E a mãe da Cândida - a ti Toita - sentada no degrau da rua a cortar couves galegas, com uma faca curvadade de tanto cortar, para fazer o caldo. Corria a década de 50, tempo que havia pobres de pedir uma codinha de pão por Deus.
O meu umbigo sempre esteve situado em Vilar Maior, a Vila, como me apraz dizer. É o cordão umbilical que me liga aos meus antepassados, à Terra, ao Universo. Foi dali que aprendi o mundo e é dali que o mundo ainda continua a ter sentido. Por isso, penso nela, escrevo sobre ela, busco saber mais dela, porque, com isso, nada mais faço senão saber de mim. Sei disso, porque hoje, dei em revisitar este blog onde escrevo na procura de uma foto que precisei e perdi-me com tudo o que por ali passou: óbitos, muitos óbitos e um pensamento incómodo por este caminho qualquer dia não há quem ninguém; abandonos retratados nas casas sem telhados, sem portas e sem janelas assim uma espécie de esqueletos, felizmente que não cheiram mal; e o abandono dos campos traduzida na paisagem deixada entregue ao deus dará que todos sabemos ser o deus do relaxe e do desleixo. E de coisas que não são, não estão como lhe é dado. Mas logo me ocorre que nunca as coisas estão como deviam estar e que essa é a razão porque ainda cá estamos - para remendar, recriar, remediar. E, olhando para muitos dos posts publicados vemos uma Vila que se renova, que lava a cara, que se embeleza; vemos uma vila onde em cada mês de Agosto matam saudades os que a ela continuam ligados por um cordão umbilical; vemos o desfile ilustrado das gentes e dos acontecimentos; lemos histórias da história da vila; lembramos muitos rostos que nos foram familiares e até rostos de crianças que já são adultos.
Agora entendo um leitor do blog que me dizia: - Sabe muitas vezes, salto do facebook para o seu blog. É diferente, não são só fotografias, fotografias. Sabe é que eu também gosto de ler.
Um outro dizia-me que todos os dias lá ia a ver se havia alguma coisa nova. E confesso que é, para mim, um estímulo, tanta gente manifestar-me o interesse pelo blog.
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.
Alberto Caeiro, em "O Guardador
de Rebanhos"
Procissão de Velas, no sábado; procissão do Senhor dos Aflitos, no domingo; procissão da Senhora de Fátima, na segunda feira.
Missa Campal
Ao longo do ano há, no calendário litúrgico, diversas festas celebrando acontecimentos relevantes da relação do homem com o sobrenatural, mas aqui na Vila, a FESTA, a festa das festas, era, é ainda, a festa do Senhor dos Aflitos.
A FESTA marcava o fim de um ciclo do trabalho dos homens (quando o trabalho de quase todos era na terra, aqui na sua terra) que acabavam de colher os frutos da terra - a batata, o feijão, o pão, e, em breve, o vinho. Era, pois, o início de Setembro a altura de festejar, a altura para dar graças a Deus. E para pedir e rogar também ao Senhor dos Aflitos.
Os tempos mudaram, todos o sabemos. Até a paisagem mudou, por mor do abandono da cultura da terra, da agricultura. A vida das pessoas e o modo de cuidarem das suas vidas mudou e, com isso, o calendário
das suas obrigações. Agosto tornou-se para a maioria, sobretudo para os emigrantes, o mês de férias, o mês em que podiam estar na Vila. Nesse contexto, a maior parte das freguesias circunvizinhas mudaram as suas festas para Agosto. Na Vila quis manter-se a tradição, com todo o direito que assiste aos vilarmaiorenses de escolher um caminho diferente, com inerentes dificuldades na escolha dos mordomos, cujo processo de nomeação poderia ser revisto.
Tudo isso são metodologias e processos susceptíveis de mudança que assegurem aquilo que não deve mudar e, como testemunhas, sabemos que não mudou na festa que acabou de se celebrar: A Fé e Devoção ao Divino Semhor dos Aflitos
São vivências muito especiais as dos dias da Festa. É especial a Procissão de Velas no sábado, qual dança religiosa no andar cadenciado dos fiéis embalados ao som da filarmónica, iluminados pela mortiça luz das velas e pelas cadentes estrelas dos foguetes; é a reza do terço com meditação sobre os mistérios da vida de Cristo; é a missa campal, que com isto de ser campal acrescenta uma dimensão cósmica de abertura ao transcendente, uma igreja que tem como limite o horizonte celeste; é a procissão onde se cumprem promessas, feitas em horas de aflição, carregando um peso que é mais do que físico e serve de consolo espiritual.
I
Nosso Senhor dos Aflitos
De dois anjos ladeado
Atendei corações contritos
Defendei-nos do pecado.
CORO
Ao deixar-te, ó meu Jesus
Ouvi hoje rogos meus
Derramai as vossas bênçãos
Aceitai o meu adeus
II
Nas desditas desta vida
E nas horas de aflição
Teu coração por nós palpita
Sede nossa consolação
III
Rei de Amor, Rei de Beleza
Sois o Deus, sois o Senhor
Canta a Terra Portuguesa
Canta o povo de Vilar Maio
Canta o povo de Vilar Maio
A Atalaia ou Atalaínha - Contígua à casa dos herdeiros de José Fonseca (José Laranja)
Vimos num outro post que o Arco, a porta de entrada constituía um lugar estratégico de defesa. A este Arco vinha dar todo o muro que vinha dos Craveiros à Atalaia, corria acima da actual propriedade de José Pedro até à forte muralha sobre o Barroco doa Martírios, Cadeia e no cimo da atual e recente escadaria. Da situação nos dá conta As Memórias Paroquiais, no que se refere a Vilar Maior: «Está esta villa circuitada de muros em redondo porem de tam poca defensa por se acharema arruinados, tem dentro dos muros tres atalaias que se acham arruinadas tanto de telha como de madeiras ...»
Resta-nos o desafio de saber onde se encontram as outras duas atalaias.
O caminho dos Craveiros foi um caminho importante de acesso ao Castelo. A fotografia mostra, apesar da deterioração visível, um dos mais bem conservados trechos de muralha, junto da Atalaia. Daqui se avista até longuíssima distância mas permitia, sobretudo, uma visão mais próxima daqueles que ousassem trepar pela encosta sul de que não podiam aperceber-se a partir do Castelo. Esta atalaia deu nome a um dos seus acessos, um caminho íngreme, designado Atalaínha.
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