Domingo, 26 de Setembro de 2021

Carta ao futuro presidente da Câmara do Sabugal, venha quem vier

 

Mapa Concelho Sabugal

Nota prévia: Esqueci-me de meter a carta, escrita há alguns dias, na caixa do correio. Daqui  a meia hora fecham as urnas. Provavelmente, quando a ler, já saberá quem é o novo Presidente da Câmara.

Nasci em Vilar Maior, uma das cinco vilas medievais que integraram o concelho do Sabugal e que, passados cerca de 150 anos, consegue ter menos população que qualquer um dos extintos concelhos. É um extenso concelho - há, no planeta, 23 países com menor superfície – cujo eixo fundamental no seu desenvolvimento histórico foi o rio Côa.

Não me lembro da primeira vez que fui ao Sabugal. A maior parte da gente da Vila ia lá, pela primeira vez, a fazer o exame da 4ª classe. Acontece que, comprado o meu primeiro fato, eu com os do meu ano fomos fazer o dito exame a Alfaiates. Lembro-me que ir ao Sabugal não era motivo de júbilo para a gente da Vila onde, para tratar o assunto mais pacífico era, sempre, preciso contar com a boa catadura do funcionário. A viagem não era fácil e, em dias de Inverno, quase impossível ir e voltar (50 km) com luz solar. Mas era lá que se pagava a décima ou o relaxe da mesma, a licença do cão e mais disto e daquilo, mais a coima por atraso ou incumprimento, lá se ia tirar a certidão, mandar ler a matriz dum prédio, lá se ia dar parte de alguém ou prestar contas à justiça. Tudo pedido por favor e olhos no chão. Era o tempo em que esta lusitana gente mourejava de sol a sol, trabalhando como galegos em povoados sem luz, sem água e sem cuidados médicos. Eu vivi neste mundo. Após o exame da 4ª classe, despacharam-me para o seminário de Beja.

Por essa altura, começa o princípio do fim. Começou a guerra colonial. Inicia-se a diáspora para França, a salto quase todos ou com papéis, tornou-se o destino da maior parte, primeiro os homens, depois as mulheres e os filhos. Todos com uma história para contar. A maior parte pensou em ir e voltar. Compraram casas que, por vezes, não habitaram e campos que nunca cultivaram.

A Vila do Sabugal, elevada a cidade, e o concelho, no seu todo, foi-se esvaziando de gente. A primeira geração de emigrantes envelheceu e, com os filhos lá fora, recolheram-se em lares que foram surgindo por todas as terras vindo a constituir uma das partes essenciais da economia do concelho. E como é da natureza das coisas terminará num prazo curto.

A outra parte da economia, a sua parte mais importante, é a pior das economias: as vacas. Isto nada tem a ver com os seus atores que merecem todo o nosso respeito e que, sem eles, o concelho seria uma selva completa. Porém, é uma atividade que nem cria emprego nem valor acrescentado e que concorre com produtores europeus em circunstâncias completamente desvantajosas. Como criar uma carne com selo do Sabugal, quando sabemos que as vacas durante uma grande parte do ano são alimentadas com rações? O que torna essa carne assim tão distinta? Este é, apenas, um exemplo de promessas irrealizáveis. Não nos damos conta como a paisagem do concelho está a mudar, em grande parte devido ao uso do arame farpado que veio substituir as antigas paredes, com o aproveitamento quase total do território para pastagem das vacas.

Por vezes, não nos damos conta como a introdução de um fator é decisivo no desenrolar da História. No livro: “50 Coisas que Mudaram o Mundo”, Tim Harford faz constar a invenção da farpa que veio dar resposta aos grandes criadores de gado e agricultores que, finalmente, encontraram a forma segura, eficaz e económica, que nenhuma legislação poderia resolver, da delimitação da propriedade. Sem ela, os Estados Unidos não teriam sido ou não teriam sido como são e não teria havido uma grande potência, não teria havido Guerra Fria … e toda a História teria seguido um curso diferente.

A paisagem física –  e a paisagem social – do Sabugal mudou. Mudou por causa da emigração. Na União de Freguesias Aldeia da Ribeira, Vilar Maior e Badamalos, as carrasqueiras estão a substituir os carvalhos. Em Vilar Maior,  a zona do castelo e o interior das muralhas foram invadidas. O fenómeno deu-se em cadeia: as pessoas deixaram o campo, venderam cabras e ovelhas (adoram rebentos de carrasqueira) e as bolotas contrabandeadas por aves chegaram da vizinha Alamedilla e Albergaria e prosperaram.

Eu gosto dos carvalhos que, chegado o Outono, deixam cair a folha e deixam a vista desafogada e o sol aquecer a terra.

Gosto do território deste concelho e de pisar o chão. Este último mês de agosto, todos os dias vi nascer o sol raiano, não há auroras iguais.

 No verão de 2016 e 2017 cumpri um projeto pessoal – Por terras do concelho do Sabugal, passo a passo - de conhecimento de todas as freguesias (antes das uniões) do concelho. Sempre, antes do nascer do sol, saía de carro em direção a uma povoação a partir da qual seguia a pé até à próxima. Percorria as ruas e largos, fotografava as igrejas e capelas, as torres sineiras, as cruzes, as senhoras dos caminhos, os paços da via-sacra, as alminhas, as fontes, os lavadouros, o forno comunitário, o tronco de ferrar, os brasões de armas e outros emblemas, os maçadoiros do linho, mobiliário urbano, o recinto de festas ou de touradas e o forcão – emblema maior das terras raiana. E encantava-me com a arquitetura das casas. As antigas, em pedra talhada ou pedra solta, rasteiras ou de rés do chão e andar, cobertas de telha velha, quase todas abandonadas, deixando-nos a adivinhar as histórias da gente que lá morou. Umas ainda conservadas na sua integridade física à espera de ninguém; outras de portas e janelas escancaradas, sem telhas com arcas esmagadas, cadeiras desconjuntadas, tonéis, dornas, instrumentos agrícolas, um jugo, uma albarda escolhambada, teares com teias penduradas; dentro, cresceram figueiras, silvas e sabugueiros, sobretudo sabugueiros que espreitam por cima cheios de flor; no curral, a latada pendurada até ao chão cheia de uvas que ninguém quer. E ficava doído, cá por dentro, com este abandono.

Depois, havia as casas que tinham tido sorte que os seus donos tinham conservado, renovado e aprimorado a seu gosto. Era possível distinguir, em casas diferentes ou nos sucessivos restauros, três idades: A idade da pedra, com portas e janelas (algumas em guilhotina) em madeira; depois, vem o tijolo e o cimento e, com ele, a idade do ferro que substitui portas, portões e janelas por aquele material; finalmente, o alumínio na sua cor natural. As entradas/saídas dos povoados, por vezes, com cemitério aumentado e lar de edificação recente, encheram-se de casas novas, algumas tipo maison.

Há uma sabedoria estranha na forma regular como, ao longo do tempo, surgiram as povoações: Em média,  distam cinco quilómetros umas das outras. Não houve quem o planeasse deste modo, mas parece bem a quem andou todos os povos do concelho. Em tempo é cerca de uma hora. Cada povo fica, em média, com uma área de 20km2 que, multiplicado pelas freguesias, antes da união, dá, grosso modo, a área do concelho. Ao percorrer, passo a passo, todo este extenso concelho (feito a pé fica, ainda, muito maior) temos todo o tempo para experienciar, em nós, a natureza em toda a sua riqueza: ver o nascer do sol, os cheiros, os sons – de um motor de rega, dos chocalhos de um rebanho ao longe, do latir dos cães, do zurrar dos burros, do urrar das vacas, do cantar dos galos e, sobretudo, do trinar das aves. E, por vezes, um silêncio sem fim acompanhado do som dos passos do caminhante. Tempo para olhar em redor as paredes, os cômoros, as noras abandonadas, as regadeiras feitas em pedra e, em tudo, admiro o saber ancestral. Ficava contente quando aparecia alguém, homem ou mulher, para ouvir uma voz humana. Preferia ouvir e fazer perguntas. Uma pergunta era certa: - De que têm brio cá na vossa terra? E todos apontavam o indicador maior da sua identidade, desde a festa do santo ao altar de talha dourada, a isto e àquilo. Contavam as suas histórias que começavam num tempo de pobreza e dos passos da vida que os conduziu até a este momento em que me encontraram, por acaso.

Ninguém conhece este concelho da maneira que eu conheço. Não trocaria esta minha experiência por nada. Há coisas que são intraduzíveis. Posso falar-vos da Redondinha, ou de outros lugares, mas não sou capaz de vos traduzir o que senti ao visitá-los. Sei que lá voltarei, provavelmente, de carro.

Um concelho extenso palmilhado, passo a passo desde os extremos da Cerdeira à Malcata, dos Forcalhos à Bendada, aos pequenos povos da Arrifana, das Batocas, do Escabralhado, do Faleiro (onde não mora vivalma), do Cardeal, de Pouca Farinha, de Roque Amador, da Redondinha e outros. Talvez me perguntem: -Foi a Dirão da Rua? E a resposta é, ainda não.

No dia 18 de Setembro, vinha ao fim da tarde de mais uma visita a Sortelha - com muita gente pelas ruas, muita gente a visitar a antiga vila. Parei na principal rua do Sabugal para tomar uma bebida. Estavam três pessoas na esplanada. E, de gente, não vi mais. No Sabugal, não há uma livraria. Se quiser adquirir um livro, mesmo da cidade ou do concelho, não tem como o fazer. Num outro dia, precisei de tirar uma certidão no registo civil e tomei uma rampa (na minha idade já vou procurando acessos mais cómodos) que, no final, impedia a entrada no edifício. Eu sei! São pormenores, coisas pequenas. Porém, quem não tratar das pequenas, é escusado prometer coisas grandes. Na Primavera, levei comigo um jornalista aqui do Porto que tinha interesse conhecer o concelho do Sabugal. Percorremos todo o concelho (de carro, está-se a ver!) e ficou admirado como é que eu sabia que era para a direita e não para a esquerda se não havia informação. Disse-lhe que eu era daqui e as pessoas de cá não precisam de informação. No dia seguinte, a viagem era em direção às Termas do Cró. Saídos de Vilar Maior, uma bifurcação: Lá estavam as placas indicadoras: Vilar Formoso, à esquerda; Sabugal, à direita. Sem problemas, mas tive de contar ao meu amigo que estas indicações são recentes e foi preciso dez anos para serem repostas. Chegados à Bismula, à saída, em vez de virar para a placa que indica Vale da Éguas, seguiu em frente. - Eu sei que tu sabes que todos os caminhos vão dar a Roma mas inverte a marcha que por ali é mais perto. Passados dois kms, depara-se uma rotunda de que apenas resta sinalização em frente (Vale das Éguas). Pergunta-me:- E agora? Disse-lhe que para a esquerda é Ruivós, para a direita é Valongo e que, por aí, até seria mais perto para as termas mas iríamos perder dois trechos do rio Côa na praia de Vale das Éguas e da Rapoula. Tudo isto num percurso de 15 ou 20 kms. 

Percorrer o concelho do Sabugal, passo a passo, seria um bom começo para ser presidente da Câmara. Andar a pé ensina-nos três coisas importantes: perseverança, coragem e humildade.  

Seja quem for o Vitor vencedor, não se esqueça que a oposição é importante e que nenhum caminho de sucesso pode ser trilhado sem o contributo de todos.

publicado por julmar às 12:37
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