Sexta-feira, 26 de Agosto de 2011

O dia do mercado, ainda

Uma bela crónica retirada do blog " Miuzela Arriba", de Carlos Esperança e que não resisto a publicar aqui. "A morte não é só a injustiça que refere Saramago, é uma divina patifaria à espera da manifestação de repúdio adiada pela complacência, cobardia de quem teme atirar pedras ao algoz. É difícil perceber como vivos provisórios, sem nada a perder, se resignam, sem luta, a tornar-se mortos vitalícios. Não serei eu que os convoco para o exercício cívico de um dever de cujo êxito não estou seguro, mas também não os acompanharei na subserviente gratidão por cada dia de vida que gozam enquanto esquecem agravos para com entes queridos que foram. Mingua-me, aliás, a autoridade. Partiram os avós e eu nada fiz, chorei apenas. Dói-me recordar a avó que ainda me sorri com o sorriso que lhe via quando a convocava a acompanhar-me à poça de lama onde eu caíra, a exigir-lhe a mão para me levantar de novo onde antes tivera de o fazer sozinho, e a dizer-me meigamente, filho, és quase tão bom como bruto e és tão bom. E o avô, generoso, a repartir sempre o que tinha sem nunca o arrefertar, a insistir comigo para que comesse. Depois foram os pais e fiquei sem retaguarda. À medida que foram as pessoas que amámos, apreciamos mais as coisas que eram. E invade-nos a saudade pela nogueira sob cuja copa jogávamos à bisca, cortada para lhe porem uma casa no sítio. Onde então estavam as raízes passam hoje canos; no lugar das nozes secam peúgas e cuecas no estendal; aquela pedra que suportava o baralho, donde biscávamos as cartas, está algures na parede da casa rebocada se, acaso, lhe deram préstimo. Sobre a videira de moscatel cujas uvas resistiam à nossa gula, defendidas por uma mistela que punha os garotos de soltura e lhes arriscava a vida, foi construída uma garagem. Até a macieira velha onde todos os anos sobravam duas ou três maçãs para o rebusco foi sepultada por uma máquina cujos roncos saíam da nuvem de pó que anunciava a nova méson do emigrante. Roubaram-nos as sombras, os sítios e, sobretudo, a memória daquelas tardes em que jogávamos às cartas até à hora em que o sol, depois do seu pôr, deixava no horizonte uma auréola rosácea a indicar onde se ocultava. A terceira quinta-feira de cada mês era dia de mercado. Nas tendas vendiam-se sapatos, pentes, fazendas, canivetes, alfaias agrícolas, espelhos redondos com emblemas de clubes de futebol por trás e molduras com a senhora de Fátima e os três pastorinhos. Um negociante comprava a dois contos o quilo de lenticão, fungo do centeio, pequenos cornos cujos alcalóides faziam, sei-o hoje, as delícias dos farmacologistas e a fortuna da indústria farmacêutica que os convertia em remédios para variadas moléstias enquanto, ao lado, um negociante comprava lã com a arroba a valer dezasseis quilos, um era para a merma. Por cima dos barrocos, em precário equilíbrio, barris de vinho esvaziavam-se ao ritmo dos negócios e da sede a caminho de estômagos vazios ou com fritos à espera. Os solípedes valiam mais na altura das colheitas e desvalorizavam no inverno por via da escassez dos fenos. Os porcos começavam a comprar-se na Primavera para criação e no Outono para engorda. Os borregos e os cabritos tinham a sua época. As vacas e os vitelos valiam uma fortuna mas custavam a criar. Às galinhas pedia-se um certificado de que não tinham moléstia, certificado que logo era passado por palavras de quem vendia, e que valia o mesmo do que isentava da peste o porco que se comprava para criar. Entre as dez da manhã e as cinco da tarde fazia negócio quem podia, depois era levantar a quitanda, o que tinha a dar já fora, toca a arrumar a tenda e ala que se faz tarde, era milagre não haver três ou quatro furos aos cem quilómetros nos carros ligeiros e camionetas. Era então que os garotos competiam para se dependurarem na escada fixa que conduzia ao tejadilho da Vencedora, camioneta sem janelas que misturava mercadorias e feirantes no interior, e regressavam a correr para apanhar outra camioneta para, dependurados nos taipais, voltarem a fazer a viagem do Espadanal até à vinha do Panelo e tentar ainda outra, numa competição por distância percorrida, puxados pelos motores que se queixavam do piso, do peso e da subida. Os automóveis estacionavam sempre a descer, desconfiados os condutores da eficácia da manivela para despertar o ímpeto que os motores de arranque haviam de tornar uma brincadeira ao alcance de um leve toque na chave de ignição. Mas os automóveis eram raros e só consentiam um único garoto no pára-choques traseiro pois havia apenas o manípulo da mala para manter o equilíbrio durante os solavancos. As carroças, que os machos tiravam lestos, eram difíceis de ultrapassar pelos veículos motorizados mas deixavam indiferentes a pequenada. O mercado era o frenesim mensal, a romaria laica, o destino de quem precisava de vender e de quem podia comprar, o ponto de encontro de produtos, afectos e suor, o lugar de partida de um negócio auspicioso ou de chegada para uma pneumonia de mau prognóstico. Nem a chuva nem o sol venciam o mercado que todos os meses se repetia.
publicado por julmar às 20:19
link | comentar | favorito

.Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente

.pesquisar

 

.Abril 2021

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Feliz Páscoa - Mandar rez...

. Igreja da Senhora do Cast...

. Gente da minha terra

. Manto Branco

. Projeto "Tornar Vilar Mai...

. Quando a festa virou trag...

. A Vila e suas gentes

. Requiescat in pace, Elvir...

. Requiescat in pace, Maria...

. Tornar a Vila numa aldeia...

.arquivos

. Abril 2021

. Março 2021

. Fevereiro 2021

. Janeiro 2021

. Dezembro 2020

. Novembro 2020

. Outubro 2020

. Setembro 2020

. Agosto 2020

. Julho 2020

. Junho 2020

. Maio 2020

. Abril 2020

. Março 2020

. Fevereiro 2020

. Janeiro 2020

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

.links

.participar

. participe, leia, divulgue, opine

blogs SAPO

.subscrever feeds