Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011

ALBROQUEIROS, ALVOROQUEIROS, RACHADORES OU DESEMPATAS - Dr Leal Freire

Nunca pude apurar, mau grado porfiadas indagações, não só minhas mas também de meus amigos e conhecidos interessados na linguajar da Raia Sabugalense, como o vocábulo ALBROQUE ou o seu epentetico e desbetacizado ALVOROQUE  se  integrou no nosso lexico.

O que qualquer cidadão, frequentador ou não de mercado, sabe é que concluido um negocio de gado grosso pela intervençao de terceiro a ele estranho, comprador e vendedor encaminham-se logo para a taberna mais proxima, celebrar a veniaga numa profusao de quartilhos.

Ainda que o antigo e novo dono da rez acabada de transaccionar se situem na quintessencia dos sovinas, surrelfas e mãos-de-vaca, o terceiro que desempatou a borra que os separava leva-los-ia, aos empurrões, à chapada, ou mesmo à bordoada, ao cumprimento do ritual

Esta era, aliás, a unica recompensa para um serviço para as duas partes contratantes

absolutamente essencial, pois, sem ele, o negocio não se teria fechado

É que, para além da meia canada, aquele terceiro nada receberia, ainda que monetariamente o quisesssem compensar, pois a nota lhe queimaria os dedos

E ele não fora ali por dinheiro, mas para ajudar e acamaradar

Passeando, embora, por todos os largos, ruas, quelhos e bocas de rua, onde se mercadejasse,      .

Era, porém, o mercado das vacas de trabalho o seu palco de eleiçao.

No gado miudo, ovino, caprino, suino de engorda, a contrataçao, por mais simples, dispensava intermediarios e a insignificancia do valor obtido não dava normalmente para pandegar.

As especies, cavalar – também chamada equina – asinina e muar, essas eram quase sempre negociadas por ciganos, muitas vezes porta a porta.

De resto, só as feiras de ano contavam com terreiro apropriado

Inversamente, não havia mercado sem o largo ou lameiro das vacas,

Ora, até à queda da Monarquia, em fins do ano de mil novecentos e dez, além da existencia de um vasto leque de feriados religiosos, todas as quintas feiras assumiam a natureza de dias santificados.

O poder régio e as autoridades locais fizeram coincidir com os dias de preceito a realizaçao de feiras de ano  e com o dia de quinta, considerado o meio da semana, o  de

mercados de âmbito concelhio

Destes hebdomadários, os mais concorridos aqui na zona eram os de Alfaiates e da Miusela.

É nestes e na subespecie mercados das vacas que vamos ver actuar o nosso personagem.

Ao lado de uma vaca, frente a frente um com o outro, estão, desde alta manhã, dois lavradores de meia aiveca.

O dono quer vende-la, tem mesmo imperiosa necessidade disso -- porque precisa de saldar uma dívida; porque criou outra e o mantimento não chega para tanto; porque, por razões de saúde, de idade, de viuvez,...pretende abandonar a lavoura; porque a rez está a tomar maus sestros só dele ainda conhecidos

O outro circunstante precisa de comprar e  quer efectivamente comprar -- para  emparelhar com a que tem em casa; porque, casado recentemente, quer emparceirar  com alguém, havendo-se já comprometido para  tanto

Os dois contendores—e  são-no efectivamente pois vão travar uma batalha verbal de muitas horas—cedo se chegaram á fala.

- Então que malapata deu ao animal, para vossemecê o trazer aqui?

- Malapata! Tomara seu pai estar tão são como ela que vossemece estaria mais de cem anos à espera de sapatos do defunto. Criei outra e mais dia, menos dia tenho de me desfazer desta. Mas não é nenhuma sangria. E quem a quiser levar tem de cubri-la de notas...que por menos de trezentos contos ninguém ma tira dos poderes

- Tomara vossemecê de ouvir uma terça parte, que não há tonto que lhe acene com ela

Esta primeira arremetida termina aos berros e a pessoa estranha até pareceria que iria a haver estadulhada.

O candidato à compra desarvorou.

Um seu conhecido abeirou-se do vendedor.

- Então, correu com o rapaz? Olhe que ele é sério, traz dinheiro e veio ao mercado mesmo para comprar.

- Não é mais sério do que eu!

- Ninguém quer dizer isso.

- Pois sim, mas ele desfez-me da fazenda!

- Homem, isso faz parte das regras.

Entretanto, o albroqueiro já anda por ali farejando, mas ainda é muito cedo para intervir e puxado por outros moinas vai até uma venda ambulante provar da abertura da angoreta ou vai fechar transacção já amadurecida

Puxados por conhecidos, os candidatos ao negócio voltam à fala.

Um a elogiar a vaca: Mansa, que pode ser posta ao jugo por menino de mama; boa de leite e de partos; esforçada no arado, na charrua, na acarreja, até a  acamboar.

O outro caçoa. E tambem se confessa e vai á missa.

- Olhe que a carantonha é de assarampada e o passo é de esgrouviada, além de ser fechada de cornamenta....

- Safe-se já da minha frente que já nem estou a vê-lo, de arrenegado com as suas palavras, objurga  o outro.

A zaragata, porém, não estoira, porque nenhum deles quer zaragatear

Nem os vizinhos que não estão ali mais do que para dulcicificar os derrepentes

deixariam.

Numa terceira facécia, entra-se já no jogo do sobe e desce.

Um vai subindo a oferta, ao ritmo de patacos, é certo.

O outro vai baixando as exigências, igualmente por pinguinhas e  mijinhas

A manhã de há muito que se passou e a tarde aproxima-se do fim

E os dois embezerrados, por uma cifra de borra.

Mas nenhum dá mostras de ceder

Embora ambos estejam maduros para o desenlace.

É então que, majestoso e majestático, chega o rachador.

Nenhum de vós tem palavra de rei. Não são cento e oitenta nem duzentos contos— são cento e noventa e acabou-se

O mais famoso, autoritário e respeitado destes homens de mercado de que tive notícia, foi o Joaquim Alves Martinho, da Bismula, por toda a região conhecido pelo MARIALVA

Filho de um conceituado negociante de gado para abate e dono de vários estabelecimentos de talho, que enriquecera de tal modo que  do Buçaco, onde fornecia  hoteis de luxo, à  raia de  Vilar Formoso, onde passava o SUD, cliente para as mais finas vitelas, o conheciam por CAGA-LIBRAS ou BARBAS DOS MILHOES

Iniciara-se com o pai naqueles negocios.

Mas não era para aí que lhe puxava a inclinação.

Em novo, fora um conquistador temível, deixando muitas raparigas sem ceia e algumas sem o dote genesíaco dos três vintens.

Depois afeiçoara-se áquela vida airada dos mercados, onde não gastava um ceitil, que os amigos, afilhados e feirantes não lho consentiam, nem aferrolhava chavo que a tanto não viera.

E, quando numa roda de sete léguas, nada havia mercado, gastava-se pelas tabernas do  povo se alguma adregasse de abrir ou pela sua adega, escancarada a quaisquer moinas, aldeanos  ou ciganos, arraianos  ou da quinta casa  de Portugal ou mesmo Espanha.

A sua generosidade só regeitava fomes-negras, daqueles que têm de tudo, mas não dão, nem gastam nada.

E não se circunscrevia a encher de vinho o fole dos que apareciam.

A muitos livrou de enrascadelas, afiançando-os junto da banca, onde seu falecido pai o credenciara.

Se algum, o que rarissimamente aconteceu, se atrasava no cumprimento, o MARIALVA, porque o era, avançava, nem que tivesse de dar como penhor o ouro da herança.

Disponível para festas e assuntos de família, paraninfou batizados, crismas e casamentos, sobretudo de ciganos, de quem se dizia que levavam os filhos  à água lustral  um pouco por todo o País, para assegurarem  um protector em cada  zona.

Joaquim Alves Martinho não limitava as obrigações de padrinho ao folar de sábado santo.

Excedia as posses, que eram limitadas

Compadres e afilhados correspondiam em amizade.

E era vê-los onde o povileu se ajuntasse reverenciando o padrinho, que também por esta temível coorte de fiéis seguidores via reforçada a sua influência.

Ai, efectivamente, de quem lhe pusesse em causa a palavra           

De resto, rachando diferenças, desempatava teimosias apenas aparentes que a vontade de fechar o negócio morava ínsita na alma das partes.

O albroaque, a quartilhada não representava mais do que a persistência duma velha tradição e com ele ou sem ele o grande bebedor, que nunca cortou o bigode, encabeçaria igualmente a bebedeira que o acompanhava desde que fora às  sortes.

Parece que o termo albroque ou alvoroque radicará no germânico borg ou broker, que significará intervir em negócios de outrem que é o que fazem os corretores...

E também os rachadores – assim chamados porque dividem ao meio a quantia

Que separa as duas partes - DESEMPATAS - porque são eles que resolvem o impasse-OS  ALBROQUEIROS.

Só que ao contrario dos corretores não recebem compensação monetária, limitando-se à QUARTILHADA.

publicado por julmar às 14:49
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