Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

Ora batatas, senhores!

Pois, à conta da PAC (política agrícola comum) foram as vinhas, foram as veigas e com elas foram as pessoas. É doloroso ver as margens dos nossos rios. Fizeram de nós um país terciarizado acreditando que podíamos viver a fazer mesuras uns aos outros, sobretudo aos estrangeiros, que bastaria engomar camisas sem ter que as produzir. Parece que se está a chegar a uma conclusão. Ora, batatas!

Se estivéssemos no século XX, antes do êxodo  migratório do início de sessenta, ser-nos- ia incompreensível que se pudesse  viver na vila sem batatas. Terá sido trazida da América do Sul pelos espanhóis como mera curiosidade botânica. Segundo Leite de Vasconcelos a primeira vez que a palavra batata aparece em português é no ano de 1647 e parece que o seu cultivo e consumo generalizado apenas terão ocorrido ao longo do século XIX, de norte para sul do país. 

E com o cultivo da batata muda-se a vida e muda-se a paisagem. Dada escassez de terras, os mestres pedreiros levantam paredes ao longo dos rios e criam sucessivos cômoros que ficam cada vez mais altos que o leito dos rios para o que terão de erguer essas construções cilíndricas  - os passeios das rodas (noras) - para desgraça da qualidade de vida dos burros chamados à ingrata tarefa  de num tempo infindo  terem de andar à nora. Há coisas que nem uma besta suporta sem dar em louco. Por isso lhe tapavam os olhos. E para levar a água cada vez mais longe e vencer alturas, os mestres pedreiros levantavam condutas de água rasgadas em duro granito.  É que a batata exigia mais terra do que qualquer outra cultura de regadio.

Tapada para o centeio, vinha para o vinho e veiga para as batatas. Pão, vinho e batata, eis a trilogia agrícola fundamental que sustentava as vidas. Por isso, o lavrador chegado o Outono era um homem feliz se na loja a tulha das batatas, a arca do pão e o tonel do vinho tivessem de abonda até à nova colheita. O marrano  desfeito em enchido e carnes na salgadeira, mais o pote do unto haveria de vir trazer o acompanhamento e o gosto à batata e ao pão. Tudo o mais, ainda que importantes, são suplementos ou complementos.

E as batatas eram boas de todas as maneiras e sempre com sabor diferente. Ouvia contar da desgraça que foi um ano em que a colheita se perdeu. A criatividade que era colocada para fazer o caldo. Sim, tentem fazer um caldo sem batatas os dias todos do ano! O arroz e a massa eram bens raros para dias de festa. Sim, porque a batata podia ser cozida de novelo, rachada ou descascada dando sempre sabores diferentes. E diferentes não só segundo as variedades mas segundo a terra onde eram cultivadas, constando que as melhores eram as da Balsa; tal como as secadais eram melhores que as regadias.

Porém as que sabiam melhor, eram as que no dia do arranque das batatas eram preparadas e comidas in loco!

publicado por julmar às 18:56
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2 comentários:
De Anónima a 26 de Outubro de 2011 às 15:39
Belo texto!
Faz-nos recordar os tempos em que ir regar as batatas era tarefa mais ou menos agradável e ao mesmo tempo para os miúdos eram horas que pareciam eternidades. Chegada a hora de arrancar as ditas, era uma alegria para a pequenada. A refeição era feita lá. As batatas ( as rachadas) tinham um sabor melhor que hoje o bife que comemos.


De Canalização a 31 de Outubro de 2011 às 17:15
E as batatas já foram o legume do diabo, por nascerem debaixo da terra...


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