Sou velho, muito velho. Não porque ande dobrado com o peso dos anos mas por causa da velocidade a que a vida corre sendo que o ponto donde parti se encontra muito longe. Sou do tempo da pedra, de uma pedra que eu metia na bolsa e levava para a escola. Por essa pedra passavam números e letras que se apagavam para, a partir da pena, darem lugar a outros números e letras até ficarem gravados em mim. E ficaram. Sou do tempo em que só havia a minha aldeia como mundo real e para além dela a imaginação e a fantasia.
Hoje nem há aldeias, nem lugares. Há sites e sítios de ninguém. Uma aldeia é um lugar feito de lugares. Não sei quando terei passado pela primeira vez na Rua de Cima. Hoje, reparando bem nela, parece-me uma rua mais importante que maioria das outras ruas porque dava para o Largo do Pelourinho e porque na pequena colina se erguia a casa da torre na parte mais alta da parte mais baixa da vila. Casa brasonada (brasão que a inveja ou a cobiça, ao a rivalidade ou todas juntas levaram para outros senhorios) de um tão rico senhor que, de nome Luís de Bastos, o povo o alcunhou de Luís de Gastos. As ferraduras das suas montadas eram de oiro e se, perdida uma, alguém a encontrasse e a não entregasse teria, como pena, cortada uma das mãos. Provável centro de homiziados para desbravamento dos mortórios do Cerrado e acrescento da riqueza e glória do senhorio. Aqui era o novo centro de poder. A casa possuía um grande logradouro que tinha como átrio um vasto espaço - O Curral Grande. No centro havia uma árvore tão grande que ainda hoje não consigo ver nenhuma maior - uma amoreira onde o povo todo se abastecia de amoras. Até a minha avó Joaquina, ao tempo delas, me dizia: - Ó Júlio, vai-me lá colher um pucarinho de amoras! Esta era uma árvore multissecular, talvez do tempo em que os reis incentivavam a sericultura e mandavam cuidar da alimentação do seu grande obreiro - o bicho da seda. Cultura que a minha avó Zabel desenvolvia a par da arte de latoaria. Na Rua de Cima quase todas as casas eram de dois pisos, sendo que as confinantes com a Rua de Baixo ficam térreas na parte de habitação. Por aqui passavam sempre as procissões importantes dos personagens celestiais (os Passos, as Igrejas, a Páscoa, o Senhor dos Aflitos). Como todas as ruas era cheia de gentes e animais, rua de lavradores também. Havia dum lado, no início, a casa do ti Francisco Pepina casado com a ti Maria Augusta que cozia e vendia pão aos que pão não colhiam; a ti Mariana Ferreira de porte alto, viúva e mãe de duas raparigas altas como ela; ali, em frente, a casa do Zé Simões, com uso continuado depois pela viúva Toninha! Seguia-se o ti Joaquim Alves, de alcunha médico, meu tio avô por casamento com a tia Ana Silva, (fiel companheira da burra que não montava e a que conduzia pela rédea como se fugida de Herodes caminhasse para um qualquer Egipto para os lados do Carvalhal), e que exercera a profissão de Guarda Fiscal que, conta-se, teve de abandonar pelo medo de atravessar cursos de água tais como pontões e poldras, com sorte para os contrabandistas que assim lhe podiam fazer manguitos da outra margem. Por isso, se lhe partia o coração com os maus tratos que davam aos burros quando estes se recusavam a atravessar estes obstáculos. Se para alguns a vida é uma tragédia, para ele era uma comédia mesmos nos seus momentos trágicos. E não perdia a oportunidade de no Carnaval pegar nos cambos ( balança de dois pratos) e, saco sortido de cornos, os ir vender, ao arrátel, pelas ruas dos outros, aos homens que diziam deles não carecer. rematando: - Pois, então, muito boa tarde! Está vossemecê muito bem servido! E assim, combinava, em dose excessiva, vinho, tabaco e zombaria. Mais adiante, vivia o ti Manel, alcunhado de Cabeças, criado do senhor José Ribeiro a quem bem serviu durante longos anos no ofício de lavrador. Em frente é a casa do Fernando Carriço que alteando-a, a partir da Rua de Baixo, lhe deu entrada para a Rua de Cima. A mãe, a ti Filomena Moleira, repartia o tempo pela casa e pelo moinho, sito ao Pinguelo e pelo caminho entre eles percorrido, vezes sem conta, com grão para lá e farinha para cá. Moleira de profissão assim fugia à condenação bíblica, na falta de homem, de ter de ganhar o pão com o suor do rosto, acumulando-a à dor de parir, semeando-o e tratando-o mas a quem seria injusto aplicar a má fama que cai sobre os moleiros - "A fio rouba o moleiro e mais dão-lhe o pão" ou "muda de moleiro que não mudas de ladrão". A seguir uma das maiores casas da vila que foi propriedade do sr Alexandre Araújo um dos maiores proprietários e que uma extensa família e hábitos de consumo inadequados levaram à venda de quase tudo ( bem que este homem merecia um longo capítulo) e também desta casa que duas famílias passaram a habitar. Uma delas é o ti Fernando Cerdeira (olá, ti Fernando, como passa?) que, numa viuvez já longa ( sim aqui viveu a ti Ester), vai para os noventa anos, rijo e valente e cujos filhos ausentes ( a Céu, o Tó, o Manel, a Leta) aqui vêm por mor do ti Fernando e porque aqui enraizaram tão fortemente que aqui regressarão sempre.
Na outra metade da casa morou o ti Aurélio Simões casado com a senhora Marquinhas (noutro sítio havemos de falar das Marquinhas) Ferreira. Aqui regressaram após a reforma de guarda, republicano talvez, do ti Aurélio que, prestando serviço em Fornos de Algodres, daria o apelido de fornos aos filhos (Lurdinhas, o Zé, o António, o Mário ) que se repartiram por terras de Portugal - Lisboa, Cartaxo - e estrangeiro - França, Estados Unidos da América. E a casa lá está de pé, solidamente, resistindo à inclemência do tempo, ganhando musgo, com os vasos, que foram de flores, esquecidos e desmaiados na cor, a assomar para a rua sem futuro.
As casas confinam com o Cerrado. Assim é com a casa do ti Zé Romão e da ti Maria Zorra de genealogia obscura (para mim). Ele mais alto que o normal e ela mais pequena do que o normal, haveriam de gerar o Manel, Romão da parte do pai e Zorro da parte da mãe que foi crescendo sustentado no leite de cabra e no pão da Almedilha. E só dei por ele na escola do tempo da pedra preta. E da professora que nunca ouvira falar em dislexia e que cuidava que tudo se resolvia à reguada. É assim que lembro o Manel: a levar reguadas que lhe tornaram as mãos mais duras que a própria madeira da régua até ao dia que ou por velhice, ou excesso de uso ou por sortilégio das mãos untadas de alho a régua se dividiu em duas nas mãos do Manel. Também o lembro de uma vez que me levou aos Labaços na égua e do tombo que demos; e lembro-me dele quando chegaram os motores de rega e, quando avariavam, todos chamavam o Manel. O Manel não aprendia na escola mas era um engenhocas como não havia. Depois, foi como todos os outros para França e a mecânica automóvel deixou de ter segredo para ele que tinha os carros que quisesse em alguns minutos. Até trouxe um Mercedes que, serrado o tejadilho o transportava até aos Vales onde estará ainda debaixo da cerejeira, se ainda existe. O Manel desapareceu, ninguém sabe se está vivo ou morto. Mas o Manel existiu mesmo. Um dia, quando os dias não contarem, depois da ressurreição dos mortos juntarei o Manel mais a professora que dava reguadas, e a própria régua inteira para conversarmos sobre o assunto.
A ti Zorra, Zorrinha, assim lhe chamavam às vezes mais pela estatura do que por carinho, deu origem a um provérbio local aplicado a situações em que o impossível tem de ceder. Contado em tons muito variados, a cena é, mais ou menos, assim: A ti Maria Zorra tinha a incumbência diária de, ao fim do dia, ordenhar as cabras. Não havia electricidade e na obscuridade da corte ou cortada por ténue luz de candeia, dizendo alguns que jà estaria com uma pinguita a mais, a Zorrinha foi ordenhando as cabras e, às tantas, agarrou-se aos testículos do bode com igual procedimento, ao que o bicho começou a berrar, sem que ela desistisse do intento, clamando: - Nem mé, nem desmé! Hás-de dar meio litro como as mais! Assim se tecia a cultura e o viver das gentes numa união indissolúvel entre o cuidar dos gados e das terras e o caldear do pensar e do sentir.
Confinava com a casa do Manel Zorro a casa restaurada, propriedade de Carlos Duarte Valério e que, por ouvir, terá sido do ti Valério com profissão de sapateiro. Nela viveu uma senhora que encontrou o amor da sua vida, não sei lá por onde, o Ti Aguardente (há-de ter um nome de cristão mas porque este lhe era tão adequado, ninguém lembra o da pia baptismal), porque no âmbito das bebidas alcoólicas era a aguardente a que mais apreciava, independentemente da estação do ano, do dia da semana ou da hora do dia. Não na religião, não na metafísica era na aguardente que encontrava o sentido da existência e se lhe fosse dado filosofar um pouco haveria de defender que a aguardente era o elemento primordial de que todas as coisas são feitas. Seguia-se a casa da ti Metildes Monteira ( nos livros - Matilde Monteiro), minha parenta, por via da minha avó paterna, viúva de Francisco Cerdeira lavrador com piara de gado como quase todos os lavradores que na impossibilidade de terem criados faziam filhos que passavam das tetas da mãe para as tetas das cabras que os biberões só viriam quando já não havia lavradores assim. Como se Bertholt Bretch por aqui tivesse passado, ou porque o mundo será todo muito igual por todo lado:
"O Lavrador trata da terra
Mantém em forma as vacas,
paga impostos
Faz filhos para não ter criados e
Depende do preço do leite"
Mais tarde, os filhos, à parte a Júlia, mestres na arte do pastoreio e da rabiça do arado (o Zé, o João, o Manel), irão a salto ( curiosa expressão) para França e serão promovidos a ajudantes de maçons.
Paredes meias vivia a ti Maria Dias, mais conhecida por Gidória nome de Baptismo de sua mãe. Viúva de Bernardo, identificação que legou aos filhos: o António, o Zé, o Florêncio, o Joaquim, todos Bernardo. A ti Maria Gidória dividia o tempo, do estio, nas regas do Chão dos Vales e da Veiga da Pontaguarda. É sobretudo daqui que dela guardo memória: ela da margem direita e o ti João Marques da margem esquerda. Ao tac-tac da nora dela respondia o tac-tac da nora dele durante manhãs inteiras, acompanhados do tac-tac da nora do ti António Lucrécio que um comentador inspirado do blog, lembrou assim:
" Ó alcatruzes da nora
Inertes sem honra ou glória
Pergunto eu sem demora
Por notícias da ti 'Gidória'
E respondei-me sem rebuço
O que é feito do Galucho"
No mesmo correr de casas morava o ti Xico Cunha e a ti Justina Cerdeira (bem que a rua de Cima podia ter o topónimo Rua dos Cerdeiras) cuja prole rivalizava em membros com a do ti João Marques. Por isso, tinha uma grande piara de gado, mais meia dúzia de cabra, mais um marrano, número indeterminado de pitas, um cão daqueles que traziam uma coleira de picos ao pescoço que mais do que para se defender dos lobos servia para se defender dos outros cães. E, em vez de um burro, dois burros para os pôr à canga e fazer inveja aos lavradores com junta de vacas. Feitas as contas, com mais um burro que os lavradores não precisava de lameiros, nem de nabal. Estrutura mais leve e flexível do que a do lavrador, propriamente dito, pesados os prós e os contras talvez ficasse a ganhar.Coisas que não se aprendiam na universidade. Terminava a rua de cima, no seu correr de casas do lado esquerdo com a casa do ti António Rasteiro, casado com a tia Ana Prata. Só os dois, que filhos não tiveram, cuidavam de uma junta de vacas e de uma grande piara de gado até seguir, como quase todos o caminho de França. Depois enviuvou. Para além das terras que tinha comprou a horta da ti Esperança (bela propriedade!) que continua a cultivar com os noventa anos a baterem à porta, a solidão a pesar... e recordações contadas vezes sem conta como se fosse sempre a primeira vez: 'ah, Júlio se me agarro no tempo de sê pai! Aquilo é que era um homem!' Depois, irrompia pelo Manel que guardava o gado, pela lavra das terras, pelo agadanhar do feno, pelas malhas como tratasse de uma epopeia que urgia salvar. Depois havia de recuar até ao tempo da tropa em Lisboa e das boas graças em que caíra nos seus superiores que lhe permitia interceder a favor dos seus conterrâneos, tropas também do ramo da cavalaria. Esta era a Rua de Cima dos anos cinquenta e sessenta do século passado apinhada de gente que tinha de conquistar cada dia de vida. Neste Inverno do ano de 2012, aqui nesta rua vive só o Ti Fernando Cerdeira e uma filha do ti João Bárbara que, depois e uma vida profissional no Porto aqui estabeleceu residência permanente e só. E o cão, fiel amigo. Talvez por lá se encontre o parente Zé Silva que passa o ano a ansiar pelos dias da festa para bailar, bailar, bailar. Bailar sem par, bailar só. Até que o Verão chegue. Só
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