Domingo, 22 de Abril de 2012
António Rasteiro, homem do povo,
Completamente analfabeto
Mas rico em memórias e afectos..
Sua vida resume-se assim: criado lá em casa desde menino,
Guardando ovelhas e sonhos pelos cabeços,
Emigrou depois a salto para França,
Consumindo-se em saudades da terra distante.
António Rasteiro
Voltou, passados muitos anos voltou,
As botas cobertas da fina poeira da estrada,
E desembarcando nos meus sonhos
Saiu-me ele um dia ao caminho,
De saco cheio de memórias
Ao ombro.
Abrigado à sombra da velha Acácia
Escutei então algumas histórias
Ao António Rasteiro,
Que vinha do passado,
Assim… Sem pedir licença,
Com memórias da vida dos meus avós,
Da infância de minha mãe
E da sua.
Deixei-o entrar nos meus sonhos.
Nesta terra onde não há guarda-fiscal,
Alfândega, ferrolho à porta.
O saco vinha a abarrotar,
De histórias, de pessoas,
De memórias
Que lhe vergavam
As costas.
E o António Rasteiro,
Não lhe podendo mais suportar o peso,
Despejou-o ali no meio da praça,
Assim:
Recordou primeiro como eram cristalinas as águas da fonte velha
E corriam ao desdém pelo caminho, até às Entre-Vinhas;
Falou por alto dos grupos alegres de raparigas que iam lavar à ribeira;
Referiu em pormenor algumas façanhas do Nino Badana no tempo do contrabando;
Contou as peadas de rebanhos que havia no povo,
E enganando-se duas vezes, desculpou-se, fazendo a estimativa por alto;
Falou com saudade do tempo em que foi pastor em casa dos meus avós;
Lembrou quando na meninice ascendia uma grande fogueira no cabeço da Atalaia
Para se aquecer das frias e solitárias noites de pastorícia;
E numa curiosa analepse,
Saltou para a linda sopeira, que lhe aquecia os pés quando foi praça na Cova da Moura.
Depois, enigmático,
Concluiu:
-Ah doutor, aquilo é que eram tempos, catano!
João Martins