Viúvo, desde a morte da ti Ana Prata há muitos anos, sem filhos, o ti António Rasteiro, para além de todos os Rasteiros e Pratas tem uma enorme família que são todas as pessoas da Vila. O que o tornava, assim uma pessoa tão especial?
Era o vagar, que é uma palavra bem da nossa terra, o dar tempo ao tempo que é no tempo e com tempo que os laços se criam.
Por isso, parava no meio da rua e falava, falava ... E ouvia.
Se o presente não oferecia tema, ia à memória dos tempos outros e desfiava histórias da vida real, suas e do seu interlocutor.
Era a coragem para enfrentar a adversidade, traduzida num "raio" tirado das entranhas capaz de botar por terra toda a a tibieza. Por isso, de menino criado a mando de outros se tornou dono de si, indo à luta.
Era o optimismo contagioso que se sustentava no sucesso das lutas travadas.
Por isso, cumpriu a palavra do Evangelho, multiplicando os talentos que recebera.
Era a crença no poder transformador do trabalho criador de riqueza.
Por isso, foi pastor, lavrador, emigrante.
Era, ao contrário da inveja que corrói e amargura, a admiração pelo sucesso dos outros.
Por isso, tinha tantos amigos.
Era a aceitação da vida como ela é.
Por isso, uma sabedoria assente na experiência e na reflexão.
Era, talvez esse, carácter chão, essa profundeza telúrica, que transparecia no teu olhar e irmanava todas as coisas, todos os homens.
Por isso, talvez por isso, vestias a opa, pegavas na cruz e ias à frente na procissão ou na lanterna a abrir o caminho ... para a eternidade.
Para já vou sentir a tua ausência. Sentirei a falta não do copo do vinho, mas do convite, mão na chave da porta, infinitamente repetido:
- Ó Júlio, vai um copinho?
- Obrigado, ti António. Fica para logo.
A Rua de Cima
Terminava a rua de cima, no seu correr de casas do lado esquerdo com a casa do ti
António Rasteiro, casado com a tia Ana Prata. Só os dois, que filhos não tiveram cuidavam de uma junta de vacas e de uma grande piara de gado até seguir, como quase todos o caminho de França. Depois enviuvou. Para além das terras que tinha comprou a horta da ti Esperança (bela propriedade!) que continua a cultivar com os noventa anos a baterem à porta, a solidão a pesar ... e recordações contadas vezes sem conta como se fosse sempre a primeira vez: 'ah, Júlio se me agarro no tempo de sê pai! Aquilo é que era um homem!' Depois, irrompia pelo Manel que guardava o gado, pela lavra das terras, pelo agadanhar do feno, pelas malhas como se tudo isso fosse uma epopeia que urgisse salvar. Depois havia de recuar até ao tempo da tropa em Lisboa e das boas graças em que caíra nos seus superiores que lhe permitia interceder a favor dos seus conterrâneos, tropas também do ramo da cavalaria.
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