Sábado, 12 de Janeiro de 2013

O AJIMEZ DE VILAR MAIOR

O presente texto foi retirado da página da ARA - Associação de Desenvolvimento, Estudo e Defesa do Património da Beira Interior.

Este achado foi trazido por mim e pelo meu sogro (António Seixas) do lugar de Santa Marinha, na margem esquerda do Cesarão no limite com terras de Aldeia da Ribeira. Tinha notícia que por ali houvera uma capela, indiciada pelo topónimo "Santa Marinha", razão que me levou a procurar por ali algum vestígio. A procura não foi em vão. Dentro do montão de pedras não foi possível encontrar qualquer outra que denotasse função ou decoração especial. Certamente terão levado outras que mostrassem ter uma utilização mais óbvia que o ajimez. 

 http://www.ara-patrimoniobi.com/index.php?option=com_content&view=article&id=176:ajimez&catid=46:pecas-arqueologicas&Itemid=93

 

O AJIMEZ DE VILAR MAIOR   PROVENIÊNCIA:Vilar Maior (Sabugal) MATERIAL: Granito

 

O ajimez de Vilar Maior, há muito “abandonado” entre as pedras arquitectónicas que se encontram expostas no largo de entrada no museu local, tem finalmente o seu reconhecimento e visibilidade. Apesar de não se tratar de uma peça deslumbrante, as formas e dimensões que apresenta conferem-lhe uma singularidade enquanto peça decorativa integrante de um monumento. O exemplar de Vilar Maior é uma peça arquitectónica única em todo o concelho do Sabugal e o segundo a ser referido no distrito da Guarda (apenas se encontram referências a um outro em Trancoso, mais concretamente na freguesia de Vilares). Não sendo uma peça fascinante, este ajimez sobressai pelas suas dimensões e pelo seu razoável estado de conservação, uma vez que está completo, apresentando apenas pequenas fracturas nas extremidades, das constantes transladações a que já foi sujeito. O monólito foi esculpido, em granito friável e grosseiro, de cor cinzenta (granito típico da região), apresenta um contorno sub-rectangular de superfícies não alisadas. Na base, onde são evidenciadas pequenas fracturas, apresenta dois recortes em forma de arco de ferradura que ultrapassam em cerca de 3/4 o raio de circunferência. Apresenta 1,03 m de comprimento na zona superior e 0,85 cm na parte inferior, de altura tem cerca de 0,40 cm. Os arcos ultrapassados, o do lado esquerdo mede cerca de 0,22 cm de largura e 0,29 cm de altura, o do lado direito tem 0,24 cm de largura e 0,30 cm de altura, o mainel central dos arcos tem cerca de 0,15 cm na parte inferior e 0,10 cm na parte superior.  

Uma das particularidades desta peça é que uma das faces ostenta em toda a extensão, uma inscrição gravada. No nosso decalque, feito pelo técnico de arqueologia Hugo Palhete, obtivemos a seguinte leitura: «1962 / VI / NOB C(a)STELO», que poderá interpretar-se como «Nobre Castelo, (em) Junho de 1962». O facto de quem esculpiu os caracteres se referir ao castelo, será que pensaria que a peça pertencia ao castelo de Vilar Maior? Sendo todo o texto escrito na mesma altura, a inscrição deverá ser de cronologia do séc. XX, tendo talvez sido aplicada sobre este elemento arquitectónico na altura da sua descoberta. Os caracteres que apresenta têm suscitado, também, alguma especulação. A investigadora francesa Nicole Cottart, observando a pedra e a respectiva inscrição, na vertical, vê aí letras árabes. O facto de o ajimez apresentar as faces lisas, (a inscrição foi feita posteriormente) com arcos ultrapassados e sem decoração, leva-nos a estabelecer paralelos com outros ajimezes existentes no nosso país. Com uma maior concentração destes elementos na zona Norte do país, o exemplar de Vilar Maior é muito semelhante, pelas suas características, com as peças provenientes de Santa Leocádia de Geraz de Lima (Viana do Castelo), Santa Maria de Geraz de Lima (Viana do Castelo), Areias de Vilar (Barcelos), Lordelo (Guimarães) e Vitorino de Piães (Ponte de Lima).  

Este elemento demonstra, pelas suas especificidades, que foi trabalhado e esculpido como elemento arquitectónico utilizado no lintel da janela de um imóvel religioso, assentaria sobre umas impostas verticais com um pilarete central. Em Vilar Maior, a inexistência de vestígios árabes na aldeia e na periferia põe de parte a hipótese da peça ser moçárabe. Contudo, pelo facto de apresentar os arcos ultrapassados, poderemos afirmar que sofreu influências deste período. A relativa abundância de monumentos e elementos móveis, na aldeia, de estilo românico leva-nos a datar esta peça desse período alto-medieval. Poderemos afirmar que o ajimez de Vilar Maior, pelas suas características, poderá datar do período românico, com influência moçárabe, devido aos arcos, e apontamos para uma cronologia entre os meados do século X e a primeira metade do século XI. Estamos, assim, perante mais um elemento de grande valor patrimonial que evidencia a grande riqueza monumental e histórica desta aldeia.   Paulo Jorge Lages Pernadas  

publicado por julmar às 12:18
link | comentar | favorito
3 comentários:
De Carlos Marques a 12 de Janeiro de 2013 às 14:43
Um verdadeiro Milagre! Não, não me refiro ao facto desse valioso achado arqueológico ter sido encontrado em Vilar Maior. Refiro-me, isso sim, ao facto de, e atendendo aos vários furtos de pedras dessa natureza que têm ocorrido nas aldeias da região, o achado ainda permanecer no local público aonde o despejaram há anos juntamente com outras pedras de mais ou menos valor. Milagre, mas também desleixo e, quiçá , crime de lesa património histórico-cultural; digo eu.


De VM a 13 de Janeiro de 2013 às 20:36
Com esta publicidade vamos ver se não se despertam os interesses obscuros. Não se esqueçam do recente furto das pedras junto ao Pelourinho. Seria melhor, (em meu entender) acautelar desde já, em local seguro.


De Manuel Maria a 15 de Janeiro de 2013 às 13:56
A leitura proposta da escrita no ajimnez é, como se depreende, impossível e mirambulante. Em 1962 a capela estava em ruínas há décadas!


Comentar post

.Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente

.pesquisar

 

.Abril 2021

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Feliz Páscoa - Mandar rez...

. Igreja da Senhora do Cast...

. Gente da minha terra

. Manto Branco

. Projeto "Tornar Vilar Mai...

. Quando a festa virou trag...

. A Vila e suas gentes

. Requiescat in pace, Elvir...

. Requiescat in pace, Maria...

. Tornar a Vila numa aldeia...

.arquivos

. Abril 2021

. Março 2021

. Fevereiro 2021

. Janeiro 2021

. Dezembro 2020

. Novembro 2020

. Outubro 2020

. Setembro 2020

. Agosto 2020

. Julho 2020

. Junho 2020

. Maio 2020

. Abril 2020

. Março 2020

. Fevereiro 2020

. Janeiro 2020

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

.links

.participar

. participe, leia, divulgue, opine

blogs SAPO

.subscrever feeds