Sábado, 2 de Fevereiro de 2013

As obras na Vila no Século XX - A água I

Açude das Aleijoeiras no mês de Agosto

Em artigo anterior falámos dos quatro elementos: Terra, água, ar e fogo. O filósofo grego Tales considerou-a o elemento primordial de que todas as coisas são feitas. A ciência química moderna deu-lhe a fórmula química H2 O e definiu-a como uma substância líquida, incolor insípida e inodora, essencial para a maior parte dos organismos vivo. 71% da superfície terrestre é coberta de água e no corpo humano 70% é água. A água é um elemento essencial à vida, não sendo de estranhar que, mesmo antes da descoberta da agricultura os homens tenham construído os seus povoados junto de recursos hídricos. Muitas civilizações são indissociáveis dos rios, como é o caso do Egipto e da Mesopotâmia. Tudo porque sem água não há vida. Também Vilar Maior é uma pequena mesopotâmia, ( as palavras gregas meso+potamos significa no meio de rios): a ribeira de Alfaiates traçando-lhe termo a Este e o Cesarão beijando o sopé do monte do Castelo. Num e noutro lhe foram traçando o leito, levantando muros que protejam as terras de se escoarem pelas águas, represando-as em açudes que, por gravidade, conduzidas em regueiras permitam o cultivo de regadio ou o mover as pás dos rodízios dos moínhos. As duas ribeiras traçam o rosto da paisagem, declinando-se abrupta ou suavemente em altos e baixos, planuras e montanhas. A altitude e a água ditam o arvoredo dominante: salgueiros e amieiros junto do rio, raízes na água; freixos em lameiros e regadas; mais elevados, em tapadas centeeiras, os carvalhos. Os rios são importantes habitats de vida animal e ao Cesarão alcunharam-no de peixeiro por mor da cópia de peixe, sobrelevando barbos, bogas e enguias que qualquer um podia pescar mas em que se tornaram especialistas o ti Ferreira e o ti Zé Vicente, apurados que eram na arte do tesão. Outros usavam outros modos de pescaria que iam desde o selvático atordoamento com marreta ou bomba, sendo que por imperícia alguns sofreram danos físicos graves; outros atordoavam-nos com budle ou com coca; outros armavam o galrito; outros, de forma criminosa envenenavam as águas matando tudo o que nelas vivia; alguns, como o professor Mário e o Zê Franco, praticavam-na de acordo com a lei, usando a cana. O ti Fonseca, guarda-rios, natural de Badamelos bem se doía mas um homem não pode estar em todo o lado. De resto, no rio se lavava o corpo, se aprendia a nadar, se lavava a roupa, se curtia o linho e a lã churra das ovelhas. Nas águas tranquilas dos açudes, quais narcisos, mirávamos a nossa imagem refletida e com pedras rasávamos a água de um lado ao outro ou, simplesmente, lançávamos a pedra para depois observar os circulos crescentes. E, claro, para além de dessedentar o renovo, dessedentava os animais, os domésticos e os selvagens. E o homem também, em necessidade, lá atrombava, servindo-lhe de regra o provérbio, no tempo em que não havia análise químicas: Água corrente não mata a gente ... e se a matar é para sempre. Pois tal como se diz que Dá Deus nozes a quem não tem dentes, também quando mais se precisava da água era quando menos a havia. E se as ribeiras no Inverno engrossavam e, ocasionalmente, se deitavam fora de margens causando danos, indo tudo por água abaixo, chegado o estio deixavam de correr, obrigando a cavar poços dentro da ribeira para criar o feijão, as cebolas, alfaces tomates, os pimentos e outros mimos viçosos. Por vezes, por falta de água ficavam leiras de feijão ao meio do criar. Para evitar uma perda total, colhia-se o feijoal incriado, depenavam-se as vagens, partiam-se como se fosse para meter na panela do caldo, espalhavam-se ao sol os dias suficientes até ficarem bem secas. Metiam-se num saco de linho e guardavam-se em local seco. Chegados os meses invernios, a dona de casa haveria de fazer um caldo de vagens secas onde cozera uma chouriça, uma farinheira e um naco de carne gorda que só de imaginar faz crescer água na boca. Caso para dizer que não há mal que não traga bem ou que Deus escreve direito por linhas tortas ou ainda que a necessidade aguça o engenho, ou que os caminhos do Senhor são insondáveis. Tudo sabedoria popular afinada, refinada, polida por séculos de experiência provada. Captar, represar, conduzir, gerir a água era uma parte essencial da economia da vila.

 

Ainda que a nora descoberta e utilizada pelos árabes há muito tempo ela só chegou à Vila no primeiro quartel do século XX - a primeira de António Gata e a segunda de Manuel Marques vindo substituir ou complementar com grande eficácia a tradicional picota, cegonha ou burra. E o êxito foi tão grande que passaram a ser instaladas em veigas, ao longo das ribeiras, ou em chãos, em número considerável. Na década de cinquenta haveria entre setenta e oitenta noras em funcionamento que, cadenciadamente, movidas pelo força do jumento elevavam a água para uma cota mais alta a partir da qual se efectuava a rega. A principal cultura era a batata complementada com feijão, milho, abóboras, beterrabas, alfaces, couves, etc. A introdução da nora (roda) traduziu-se num aumento considerável da cultura de regadio, do feijão mas, sobretudo na produção da batata e do feijão. Esta passou a ser o terceiro produto alimentar mais importante somando-se à cultura do centeio e do vinho. A introdução das noras levou a um incremento nos ofícios locais, nomeadamente nas artes da latoaria para fabrico dos copos ou alcatruzes; da arte dos pedreiros para abertura e empedramento de poços e sobretudo construção dos designados passeios, construções circulares que, no caso de os alcatruzes não tirarem a água directamente do rio, tinham o poço no centro do círculo. A cota do passeio teria de ser sempre superior à área de terra a regar. Depois havia que conduzir a água e em situações de maiores alturas as condutas tinham de ser feitas em pedra. E ninguém sonhou mais alto do que o sr Fernando, por vezes, tão alto que os projectos não saíam do sonho. Outros saíram e tiveram corpo. Outros, ainda, tiveram alicerces subiram a grande altura ... mas nunca chegaram a funcionar como é prova o sistema de irrigação em pedra que se encontra no sítio dos Regatos. Verdadeiro testemunho do espírito empreendedor do único capitalista , na teoria e na prática, que houve em Vilar Maior. Este era um projecto circular num mundo circular também. Um mundo novo nascia - o mundo rectilíneo, sem retorno, irreversível. Nada mais seria como dantes. Alguns distraídos, Na década de sessenta, ainda continuavam a instalar noras. Não sabiam que uma nova era estava prestes. O murmúrio das águas caindo na caldeira, o circular do burro, de olhos vendados, no passeio gasto, num retornar infindo foi substituído pelo troar do motor que abafa o os sons da natureza e a voz rapariga que alegre cantava:

 

Por cima se ceifa o pão

Por baixo fica o restolho

Menina não se enamore

Do rapaz que pisca o olho

A rapariga não sabia, não podia saber, que, em breve, não haveria ceifa, não haveria restolho e haveria de ser, em Paris que o Zé lhe piscaria o olho.

publicado por julmar às 20:25
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