Dia 28 de Setembro recebi a notícia da queda da multissecular acácia do Pelourinho. Habituado, desde que a conheço, há mais de sessenta anos, a vê-la tronco velho, esburacado, coberto de musgo, mais sêco que verde, e, a cada primavera rejuvenescer, pensei que assim continuaria até depois de mim. Aqui, no Pelourinho, viste passar os tempos e as pessoas que neles viveram. Ninguém testemunhou tanto como ela porque toda a vida da vila por aqui passava: as procissões - a do Senhor dos Aflitos, claro; mas a do Senhor dos Passos no Andar das Igrejas ou a dos Passos; a do Santíssimo em dia de Páscoa, com as ruas juncadas de verde e de lilases e açucenas e o repicar dos sinos pela mão do Junça, e as rogatórias a todos os Santos para que Deus tenha compaixão dos homens e lhes mande chuva. E os acompanhamentos dos batizados, dos casamentos e dos funerais. E a vida das gentes e dos gados que circulavam pelas ruas que todas aqui desembocavam à tua beira. E dos bailes que sob a tua copa se faziam. Os segredos que guardas de beijos roubados, de traições, de congeminações, de negócios, de despedidas e de regressos. Quantas vezes ouviste a voz do Zé Vicente no mesmo tom, da mesma maneira, saudar todos: - Bôs dias lhe dê Deus!
Agora sem seiva, tua alma vegetal irá para o sítio das almas vegetais. Teu corpo - ao contrário dos corpos animais que brevem fedem e apodrecem - poderá ter um destino que não pode ser a cremação imediata. Para já, que ninguém se apresse a despedaçá-lo. Por mim, haverias de continuar durante muitos anos, morto, é certo, mas como memória das nossas memórias. Por mim, deverás continuar enquanto o teu corpo existir.