Domingo, 12 de Janeiro de 2014

Porra Povo! - Dr Leal Freire

No primeiro quartel do século passado, viveu numa das aldeias do antigo concelho de Vilar Maior um honrado lavrador, mais que meão e a tender mesmo para riquechito que se distinguia pelo seu fervor de católico apostólico e romano.

Tinha duas juntas de vacas e contratava para o seu manejo dois ganhões.

Estes junguiam os animais alta manhã, mas só seguiam para a arada ou carreja depois de assistirem todos os dias a missa inteira, na qual o patrão tomava a sagrada partícula.

Tinha também um pastor que lhe guardava anediado rebanho de cerca  de  cem cabeças  churras  e  uma  dezena  de  cabras.

Zagal  e  reses  recolhiam  ao  aprisco  ou  chão  a    estercar  perto   e  à  vista  de  casa

domingos  e  dias  equiparados  para  que o assoldado  cumprisse  os  preceitos    da  Santa  Madre  Igreja.

Na sua corte das vacas, quente  pelo bafo de  meia  dúzia  de animais, asseada  por  constantes  malhadas  de  palha centeeira  e  alumiada  por  dois  candeeiros   a  petróleo  fazia-se serão, frequentado  quase  por  meio  povo. Reinava ali  a  moral   e  não  se  consentia   a  má  lingua.

Um  homem  de  idade  que aprendera  a  ler  na  tropa  e  que, muito   inteligente  e  aplicado, comprara  livros  de  lendas,l ia   algumas  a  meio  da  seroada, assim entretendo  e  ilustrando o poviléu.

Imprescindível era a reza do terço em que  o  regra  era  o  próprio  Cremos Deus.

Lavrador de teres  e  haveres, não esquecia, mesmo nas  laudes, as  obrigações  terrenas.

O que, por vezes, dava origem a cacofonias hilariantes, nos padre-nossos  e  ave-marias.

Estava-se  no primeiro  e   chegara-se  aquele  ponto – Padre Nosso que estais no Céu, santificado …

Aqui  suspendeu a  oração para perguntar  a um  dos  ganhões  onde metera  ele o óleo de  untar  os  eixos  do carro.

Este  respondeu: Foi no corno.

O  homem  beato  confimou  e  continuou:

Corno seja o vosso nome

Delheres  outra  vez, o hiato  foi  na  Ave-Maria

E  parou  naquele  ponto – Bendita sois vós - quando se  lembrou  de  perguntar  ao outro criado, se  deitara  palha  na  cama  dos  porcos

Ante  uma  resposta  negativa, continuou 

Havias tu de dormir como eles – entre as mulheres

No  meio das  tarefas, cantava-se  o  Cremos Deus.

Mas o coro, por ignorância dizia, em vezes  de  Homens ingratos, homens e gatos.

Muito  religioso, foi  a  intempestade  cultual  que  lhe  criou o   segundo  cognome

O de Porra Povo.

Já vos  conto, justificava  ele.

Em dia do orago, viera  a  aldeia  o  prelado  diocesano.

Acabada a procissão  da  tarde, a  que  o Senhor Bispo presidiu, começou  o  vivório

Vivam os músicos. Viva o Fogueteiro. Vivam os mordomos que entram. Viva o senhor Vigário.

Eram  vivas  e  mais  vivas

Mas  ninguém  se  lembrava   do  Prelado.

Então, gritei   bem   alto:

Viva também o Senhor Bispo, Porra Povo!

 

publicado por julmar às 15:00
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