«Bôs dias lhe dê Deus»
Poucos davam uma saudação tão simples e encenada como a sua: a entoação da curta frase, acompanhada do gesto que leva a mão ao chapéu que nunca tira, era um ritual generosamente executad para todos que com ele se cruzavam fossem ricos ou fossem pobres que a saudação não se nega a ninguém. Ao contrário de tantos outros não se rebaixava junto dos ricos da terra que o seu mundo não tinha fronteiras: pés ao caminho e tanto ia até à vizinha Espanha como aparecia em qualquer aldeia dos arredores na procura do sustento para si e para a Maria. Homem de sete ofícios: coveiro, ceifeiro (mais em terras de Castela), pescador no Cesarão peixeiro com um tesão sem igual, sapateiro remendão de que se cobrava em dinheiro, rematando sempre: «Olhe que me deu um trabalhão» e «olhe que é por ser para si». Festeiro, corria de terra em terra para apreciar a banda música e piscar o olho às viúvas.
De Vilar a 16 de Maio de 2008 às 16:40
A descrição do personagem está (quase) completa. Acrescentaria, apenas, que os sete ofícios pecam por defeito, já que também era coelheiro. Tinha um ferrinho onde caíam que nem tordos. E claro...!!! Como qualquer um, também bebia o seu copinho. De preferência tinto.
De Anónimo a 16 de Maio de 2008 às 18:59
Como esse personagem, gostava do seu copinho.
ele gostaria também de um XIRIPITI .
Alguém me sabe dizer o que é?
De Anónimo a 16 de Maio de 2008 às 20:24
Penso que o homem preferiria dois ou três meios quartilhos a cem XIRIPITIS . Quanto à pergunta, eu só responderei se quem a faz, se comprometer a pagar uma garrafa de whisky, à minha escolha, a ser bebida por todos os que estiverem, no momento, no café do Paulo em Vilar Maior. É uma espécie de castigo, claro.
De Jarmeleiro a 16 de Maio de 2008 às 20:36
Acho que tinto ou branco poco importava . era preciso é que fosse bastante. às várias artes referidas penso que havemos de acressentar as de cadeireiro e cesteiro. Era um bom homem.
De "O Vila" a 16 de Maio de 2008 às 21:06
Respeitante à personagem em questão, parece-me que está tudo dito (estará?...).
Agora de entre os comentaristas, ninguém referiu qual o nome. Estarão todos a pensar: mas quem é que não sabe o nome dele?-Eu não sei se tinha outro nome pois eu apenas o conhecia pelo de "Ti Zé Bicente ".....será só este o seu nome, ainda que pronunciado como eu o fazia??.
Provavelmente seria apenas este!!!.
De Ribacôa a 16 de Maio de 2008 às 22:05
Essa do "tesão sem igual" está espectacular. E até estou em crer que há muito boa gente que já está a fazer conjecturas sobre o verdadeiro significado de tal palavrão . Mas...! Nem sempre o que parece é. E quem o terá herdado?
De Lian a 19 de Maio de 2008 às 15:10
Eu não vou dizer que este é um blog machista mas lá que os homens estão em maioria é um facto. Não é por isso, no entanto, que me vou inibir de perguntar aquilo que tenho que perguntar e que é: Para além do significado comummente conhecido da palavra "tesão", existe outro que eu desconheça? Peço desculpa pela minha ignorância. homens
De
julmar a 19 de Maio de 2008 às 16:11
Conferido o dicionário, que nunca tinha consultado para verificar o termo tesão. diz assim: «Rede de pesca de forma alongada, retesada por meio de um arco de vime». Isto para além 'do significado comunmente conhecido'.
De Lian a 19 de Maio de 2008 às 22:24
Pois é! Eu, como habitualmente para uma consulta rápida, fui ao Google vs Vikipédia mas com esta palavra é um desastre. Confesso que nunca me passaria pela cabeça tratar-se de um aparelho de pesca, mesmo atendendo ao contexto da frase. Caso se tratasse de um galrrito ainda lá ia . Bem haja pelo esclarecimento.
Rumor Das Aguas
Sobrevoando os campos
um melro
poisa na mais alta pernada
do velho teixo.
Um bando
de jovens patos
vai na corrente.
Um caracol,
lento, lento, lento,
desce um trancho de couve.
Longínquo,
chega o rumor das águas
a galgarem o açude,
aqui e ali pontuado
pelo tilintar dos chocalhos
de gado a pastar.
debaixo da ponte romana
um grupo de mulheres lava roupa,
que estendem a corar
nos silvados da margem.
Na horta
sobre o rio,
o Lúcio
queima o pasto seco.
Passa à capela,
o Ti Zé Vicente,
que respeitoso se descobre:
- "Bô's" tardes nos dê Nosso Senhor!
Pigarreia,
senta-se no muro do caminho,
gaba as couves-galegas
postas ao longo da regadeira,
refere que o tempo vai bom
para os alfobres,
pergunta pela família
-A quem vivamente se recomenda -
Aconselha a pelo menos de palmo e meio,
o intervalo entre os pés das couves,
e desaparece na curva da ponte.
Na torre batem as sete badaladas
da Tardinha.
Levanta o melro do teixo,
o bando, em fila, sai do rio,
o caracol desaparece entre a relva;
Calam-se os chocalhos do gado,
as mulheres apanham a roupa,
morre a fogueira do Lúcio,
e distante,
o rumor solitário das águas,
galga o Chorrião!
De Dofaleiro a 18 de Maio de 2008 às 23:14
Sendo certo que na Vila todos conhecerão o homem por Ti Zé Vicente, já nas terras vizinhas não tenho tanta certeza disso. Daí e por não constituir qualquer ofensa à sua memória, porque não dizer que se trata do Ti Salazar, alcunha que rivalizava com outras não menos pomposas tais como: Ministro, Bispo, Alcaide, Craveiro Lopes...
De "O Vila" a 18 de Maio de 2008 às 23:55
Obrigado a Dofaleiro . Eu tinha algo que me dizia que a dita personagem era mais conhecida por outro nome e de facto não me enganava. Não me ocorria era o tal nome.
Já agora acrescento à lista referida por Dofaleiro o nome de "médico".
Comentar post