Sem tempo para escrever, sem tempo para ler é, assim, uma espécie de paradoxo a vida no campo. A natureza está no seu máximo esplendor e, não é apenas difícil mas impossível, verter em escrita os sons, os cheiros, as cores da ubérrima natura.
Num fim de tarde, em passeio que vai da Praça até às Eiras, passando pela ponte e voltando pelo Senhor dos Aflitos, pela rua de baixo é possível arranjar matéria para escrever um tratado da ciência humana e natural, ou ultrapassar o De Rerum Natura de Lucrécio.
Mas deixando a natureza essencial e metafísica das coisas -deve ser por isso que o Paulo diz que eu sou meio filósofo - fiquemos apenas pelo fenomenal acontecer das coisas (in)comuns.
Deixando a ponte de lado, as águas do ceasarão, o arreçaio a vestir-se de branco, aqui está a horta do Manel tratada à maneira tradicional:cavada à enxada e com o balde pendurado da burra para que toda a variedade hortícola se salve da canícola estival.
Mais adiante, o Carlos Martins termina a limpeza da sua horta e fala-me de procedimentos e ferramentas para manter o terreno limpo. Claro o ideal seriam cabras cujo dente é estuporado. Mas parece ter-me convencido a comprar uma roçadoira motorizada.
E lá está naoutra margem o Carlos, em duas de conversa no mini trator, a dar folga às costas do João Marques no amanho primeiro da terra.
Já o ano passado me tinha dito: - Ó Júlio, qualquer dia deixo-a de relva!
Não deixou. Eu sei que não deixa enquanto puder. E lá vai na casa dos noventa a cavar: truca-truca-truca.
Aqui é a vez da minha companheira de passeio ensaiar um passo a experimentar o barco onde se representará a cena de Jesus no Mar da Galileia com seus dicípulos.
Na rua de Baixo parei mais uma vez para olhar o melhor espécime urbanístico da vila. Uma janela de guilhotina com vinte e quatro vidros, uma porta arqueada para a entrada dos tonéis, tintas que o tempo comeu, feitas e aplicadas pelo ti Zé Seixas.
A terminar pelo Pelourinho, vem o Sérgio e mostra-me este barbo pescado em águas do Côa:
- Olhe este! É para si!
Pesei o espécime: Dois quilos quinhentos e oitenta e cinco gramas!
Depois foi o trabalho de o amanhar para o almoço do dia seguinte, sexta feira Santa, que me ajudou, assim a cumprir o preceito de não comer carne.