Terça-feira, 24 de Março de 2015

Memórias Perfumadas

Todos nos lembramos como era no princípio das nossas vidas, na nossa infância recuada: A chegada a um mundo no qual tudo nos extasiava: um dia reparávamos numa gota de água que desliza na vidraça da janela lambendo-a com a língua a provar a lisura do vidro; noutro dia era a terra molhada que pegávamos nas mãos; o rugido do vento, o cair da chuva; o ribombar dos trovões e dos raios cortando os céus; mil e um sabores, cheiros, sons, texturas e um número infindo de formas e figuras no espaço que iam urdindo em nós imagens do céu e da terra; um mundo misterioso que cada dia se tornava familiar, repetido, banal, habitual; um mundo que deixou de ser mavioso ou para qual nos tornámos cegos. A memória começava a habituar-se às repetições no tempo em que tudo era repetição: as refeições com as comidas sempre as mesmas: água sempre, vinho às vezes e aguardente forte de fazer vir as lágrimas aos olhos dos menos acostumados, nas manhãs gélidas de Inverno para mata-bicho; o caldo de couves, intercalado, de quando em vez, com o caldo de vagens secas e, em dias de festa, o caldo de gravanço ou, quando o rei faz anos uma canja de galinha; um naco de pão com uma talhada de morcela ou farinheira, chouriça mais raramente; umas batatas cozidas (rachadas ou de novelo) num prato, com uma lágrima de azeite, pimentão e água. 

             Os estrugidos do alho, da cebola e outras ervas aromáticas na cozinha, transbordam para as ruas; o fumo das giestas verdes  escoa-se pela telha vã enrola-se no ar,  dissipa-se com o vento, penetra forte nas narinas e obriga a abrir a porta da rua  onde a cozinheira vem esfregar os olhos lacrimejantes.

            Era o tempo em que cheirava a estrume nas lojas das vacas, na cortelha do marrano, na corte das cabras e ovelhas; cheirava a merda sobretudo no tempo em que nela mais se mexia: nos inícios da Primavera em que era transportada em cangalhas nos dorsos dos burros ou com as vacas em carros de bois. Por todo o lado cheirava a merda em múltiplas nuances de acordo com a proveniência e o grau de frescura; Merda de que ninguém se desfazia ou desdenhava que ela era essencial à vida. Era guardada em moreias  que de manhã exalavam um fumo que suavemente subia e se perdia no ar. Levada para os campos e espalhada havia de alimentar plantas e ervas donde bichos e homem tiravam sustento. A riqueza de uma casa podia medir-se pela quantidade de merda produzida. A repetição: a vida a alimentar-se da morte e esta a alimentar-se da vida num ciclo eterno.

In, Memórias de Vilar Maior- minha Terra, minha Gente, Júlio Marques

publicado por julmar às 10:59
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