Vista do Pontão e do caminho com calçada
Caminhos, veredas, carreiros eram tão importantes no passado como hoje o são estradas e auto-estradas e, hoje como ontem, indicam os fluxos de pessoas e de bens. Comunidades mais fechadas e auto-suficientes, é certo, não dispensavam o comércio e nem o acidentado do relevo ou a travessia de cursos de água o impediam. Os meios de deslocação e de transporte eram difíceis, sendo o mais disponível e prático ir a pé o que dava para atalhar caminho. O burro foi até há pouco tempo o mais comum e principal meio de transporte de pessoas e de cargas. Se houvesse de se erigir monumento representativo do trabalho duro com que a vila se forjou seria justo que fosse ao burro. De pouco sustento mas exigindo água límpida, elle puxa o arado, atrela-se à carroça, e para além de gente ele transporta no dorso todo o tipo de carga. 'Anda à roda' - maneira de dizer que põe em marcha a nora - exigindo que seja de olhos vendados, que só assim é suportável um esforço que é de dar com um burro em doido. Afinal, o deus Sísifo dos gregos, fazia o mesmo. Não fora o burro à roda e o homem agarrado ao vareio da cegonha e de pouco serviria a água da riberira ou dos poços na essencial rega do renovo das veigas e das hortas.
Se queremos conhecer a história dos povos não podemos prescindir do estudo das vias de comunicação. A travessia de rios e ribeiras constitui, igualmente, uma investigação importante. Tomemos a questão sobre o rio Cesarão. Uns afirmam que é uma construção romana, outros que é uma construção medieval baseados na arquitetura e em técnicas construtivas, ligando-as, é certo, a determinados tipos de vias, mas descurando o facto de o rio ter de se atravessar mesmo antes da existência da referida ponte. E se as pontes era preferível construí-las em sítios onde a largura do rio era menor, já as poldras ou os pontões era aconselhável construí-los em sítios onde o rio se alargava. Ora, antes da existência da ponte, fazia-se isso a uns duzentos metros a montante da mesma para passagem de carros no caminho ainda existente de uma e outra margem, desde que o curso das águas não fosse muito abundante. Caso isso acontecesse teriam de ir mais a montante no sítio das eiras donde retiraram as poldras aquando da construção do atual pontão em betão.
A minha tese, no entanto, é que o Pontão do Pinguelo era a melhor das passagens para a margem direita e que o mesmo é anterior à construção da ponte romana, para uns e românica para outros. Na ausência da ponte, este característico pontão, baixo e largo para passagem de carros é a melhor das passagens num local onde a ribeira se alarga tanto que só esporadicamente, alguns dias do ano poderia negar passagem. Do lado montante, incrustradas no próprio pontão, existem pedras que servem de poldras aos peões. Ou seja, mesmo que as águas cobrissem o pontão, ainda era possível passarem carros, animais e pessoas. Eu próprio testei o que explico no passado mês de Abril, numa altura de cheias em que as águas cobriam parcialmente o pontão e transitei à outra margem. Só isso explica o excelente trecho de calçada (à moda romana) que vai do rio por toda a subida até à Tapada Limpa. E, ainda que o sítio da Correia, tenha tido uma ocupação humana especial - Como provam as casas existentes na referida tapada e a lagareta à porta das mesmas, bem como as sepulturas antropomórficas - dificilmente se justica uma calçada destas que terminasse ali, dado que não seguia para Arrifana. Ora, eu próprio fiz o percurso para verificar que a via continuava passando no fundo do Vale da Lapa e ao cimo da Tapada Limpa em direcção a Vale de Castanheiros, seguindo depois o caminho que vai dar ao caminho para a Malhada Sorda. Por aí se saía para terras de Castela.
Com o alrgamento da povoação para além das confinações do Arco, porta de entrada na urbe, e das muralhas que a cercavam, no descer da encosta do Castelo para a baixa, outras vias surgiram. Porém a via mais importante de acesso ao Castelo é aquela que dele partia junto da porta secundária da muralha (porta da traição?), a norte e que descia (e desce mas em desuso há muito) a encosta do castelo, virada a poente, até entroncar no caminho no sítio do Enxido uns trezentos metros acima do dito pontão.
Outros factos, noutra altura, se aportarão em favor da anterioridade deste pontão em relação à ponte, podendo, para quem mais saiba do que eu, servir de apoio à tese da romanidade ou medievalidade da ponte.
A falta de Limpeza que não deixa escoar as águas e as poldras insertas no pontão
Um trecho da calçada, ladeada de muros bem construídos
Do castelo ao pontão, a distância será aproximadamente a mesma que à ponte