Quinta-feira, 6 de Outubro de 2016

Por Terras do Sabugal, passo a passo - Badamalos

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Evolução da População

 

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Saí de Vilar Maior, como sempre se saiu para o oeste, pelo largor das Portas. Tomei a esquerda e percorri o caminho que passa ao cimo do chão de São Pedro, voltei á direita, passei na mina voltei a virar à direita e passei na Fonte Nova. Um pouco mais abaixo à minha esquerda, a Fonte Velha. Desci aquilo que terá sido uma calçada medieval, agora coberta de paralelos desde que fizeram o caminho rural que levo em direção em direção a Badamalos. Passei a Ribeira de Alfaiates e subi Galhardas acima até apanhar a estrada que vem do Carvalhal.

Desci à ribeira do Beluiz  - ribeira que, nos seu começar, se chama ribeira da Nave e, mais abaixo, serve as veigas da Bismula, - nesse tão curto espaço de estrada, três cruzes assinalam a perda de três vidas ceifadas na flor da juventude, em acidentes de mota, lá pela década de noventa do século passado. Aqui junto do rio, na margem da estrada, demorei-me a olhar para uma sepultura escavada na rocha. As noras alteadas, em círculos de pedra, ficaram, ali, inúteis e silenciadas enquanto se houve, um pouco mais para baixo, o estertor de um motor de rega.

Da ribeira se sobe ao povoado a cuja entrada temos o cemitério, do lado esquerdo. Em frente, do lado direito, uma senhora dos caminhos que não pôde valer aos acidentados e, por detrás um vasto lajedo, onde há 60 anos se perfilavam enormes medas de centeio que os manguais dos malhadores, meda a meda, eirada a eirada iam apartando a palha do grão. Dia da malha, nos dias mais longos e mais quentes do ano, movimentos, gestos ritmos, sons – uma dança! Sequências. Tudo ordenado. Ao fim da tarde, uma brisa vinda de leste e o lavrador, de pá na mão, levanta o pão para que se aparte o bem do mal. Agora o lajedo está tão quieto e parado como os mortos.

Adentro-me no povo e reparo na fonte de mergulho e um pouco mais à frente sigo pelas ruas de casas, umas velhas em mau estado de conservação, outras recentemente restauradas, deixando à mostra o elemento natural e principal a rocha de granito.

 Encontro a única habitante que aquela hora vespertina se encontrava por ali.

- Bom dia, minha senhora!

- Bôs dias lhe dê Deus, responde com desconfiança fundada, não do meu aspeto, mas da memória recente de um roubo de que fora vítima e que, reposta a confiança, fez questão de me contar até ao pormenor. O magarefe acabaria por ser preso, por ter regressado ao lugar do crime.

Tudo a ressumar de história com muitas histórias: a nora parada, a fonte que não mata sedes, o tronco onde se não ferram vacas nem burros, portas que não se abrem, janelas que não espreitam para a rua, chaminés por onde se não escoa fumo, escadas que não se sobem, caminhos que não se andam, águas do Coa que não se demoram.

Por Badamalos passaram vários párocos a quem o povo perdoava fraquezas da carne. Célebre ficou o padre Bernardo Jozé Cardozo (cuja campa de sepultura pode ser vista à entrada do adro da Igreja matriz de Vilar Maior) a quem se atribui o dito “Em Badamalos é fazê-los e batizá-los”. Já o Padre Jozé Inácio de Faria (que foi pároco e simultaneamente presidente da Junta da paróquia de Vilar Maior durante muitos anos) teve menos sorte, pois, como escreve MJC, «por uma questão de águas teve de sair, falecendo pouco depois em consequência dos maus tratos, que por causa da questão os paroquianos lhe inflingiram»

Atirando-nos à descoberta da etimologia do nome e dado, em ponto elevado, haver uma atalaia a palavra BADAMALOS (bada+malus), sendo que malus significa malho e em bada poderá ter caído o r a seguir ao b, terá havido uma evolução de brada para bada. Para sinalizarem aos do castelo da vila a aproximação do inimigo, os habitantes bradavam os malhos.  Isso nos inspirou a quadra publicada em Memórias de Vilar Maior:

Brada malhos, Badamalos

Que na Vila se hão-de ouvir

Senão bradares teus malhos

Ninguém te virá acudir

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publicado por julmar às 15:43
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1 comentário:
De joao Afonso a 6 de Outubro de 2016 às 17:02
Parabéns, muito bom trabalho,
Alias muito bons trabalhos tem feito em prol das varias Aldeias do Sabugal. Obrigado por ajudar a divulgar tudo o que de bom tem o Concelho de Sabugal


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