Quinta-feira, 19 de Agosto de 2021

Quando a Festa virou tragédia II

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A emigração para França está no seu auge. A Vila continua pobre: estrada de terra batida, sem água canalizada, sem saneamento, sem eletricidade, sem assistência médica. Os francos, (sempre se falava em francos velhos que ajudavam a construir imagens de milhões) cambiados para notas de quinhentos e de mil escudos, circulavam em abundância. Agosto e setembro, os meses de vacanças, era o tempo de ir a mercados e feiras, de fazer a compra do lameiro, da vinha, do Chão, da tapada, da veiga, que haviam de assegurar uma vida boa, quando a França acabasse. Sim, porque ninguém imaginava ficar por lá, porque, como diziam, ‘a França não vai durar para sempre ‘.  As vacanças eram o tempo de mostrar a todos que a vida corria bem, que estavam a ser bem-sucedidos e, até, trocavam os ‘bôs dias e vá com Deus’ por ‘Bonjour! Coment ça va? - Ça va bien!’

Tempos de orgulho e vaidade. E, também, de agradecimento com esmolas fartas para a Festa. Das fitas roxas pendentes da imagem do Senhor dos Aflitos sobressaíam largas notas de quinhentos e de mil. Pelas dez horas da manhã do domingo de festa, no largo da capela do Sr. dos Aflitos, já com o palco ornamentado para a missa campal, o Sr. Carlos Freire procedia, em voz bem colocada e serena, à arrematação das ‘pernas’ do andor do Senhor dos Aflitos: perna direita da frente, perna esquerda da frente, perna direita da retaguarda, perna esquerda da retaguarda. Novamente, o mesmo para outro turno. Eram muitos os que queriam pagar a promessa (por terem chegado sãos e salvos a França, pela cura de uma doença, por um motivo que só o próprio sabia, por qualquer outro tormento ou aflição) e as arrematações estenderam- se a bandeiras e estandartes, a andores de outros santos, com destaque para o andor da Senhora de Fátima. Tudo para que a festa fosse rija.

Quando se falava de festa, era da festa do Divino Senhor dos Aflitos. O dia mais importante do ano era o domingo da festa, cheio de uma intensidade difícil de conter num só dia. Por isso, começava bem cedo: a alvorada com a banda de música de Loriga, do cimo da torre da Igreja, de trompas e trombetas voltadas para a povoação, executava de forma enérgica o despertar.

De imediato, o fogueteiro começava a desfiar a sequência de foguetes que os ajudantes lhe iam chegando: primeiro os mais fracos de resposta, depois os de tiro; seguiam- se os de canhão, primeiro os de resposta e depois os de tiro, por cerca de uma hora. Terminava, então, com a latada: muitas dúzias dispostas em fila numa geringonça feita para que, numa sequência curta, o som parecesse um troão único, tão forte como se, assim aos estoiros, quisessem abrir as portas do céu. Estava dado o sinal de que a festa ia ser rija. Aos de Aldeia da Ribeira, sempre a desafiarem- se, ficava entregue a mensagem - Nunca conseguirão fazer isto!

O ritual da festa é sempre o mesmo com a banda e os foguetes a marcar o compasso. Agora, um momento de acalmia para o pequeno-almoço. A seguir, umas pancadas no bombo chama os filarmónicos, espalhados pela praça e, postos em fila, ao sinal do maestro, inicia a marcha pelas ruas do povo. As mordomas, com os cestos de vime, à frente da banda, recolhem as oferendas para a quermesse. O som da música e o estralejar dos foguetes entusiasmam a garotada que caminha à frente da banda. As mulheres preparam o almoço e vestem os filhos com roupa festiva a estrear. Das portas abertas vem o cheiro dos guisados de borrego e do arroz doce. A recolha das oferendas está a terminar, a banda e acompanhamento passam frente à igreja da Misericórdia onde os fogueteiros atarefados, no largo, na companhia de alguns curiosos das artes pirotécnicas, preparam os foguetes para o final da procissão. Uma provável cana de foguete com resto de lume, vem do alto sobre o molho de foguetes que explodem e, por simpatia, estoira todo o arsenal da Casa do Sino onde estariam cerca de quinhentas dúzias. Agora não foi só Aldeia da Ribeira a ouvir mas todas as povoações vizinhas.

Uma enorme nuvem de fumo e poeira cobriu o ar, um intenso cheiro a pólvora espalhava-se em redor. Os olhos incrédulos encontravam no sítio da Igreja apenas um monte de pedras. As pessoas corriam, para um lado e para outro, à procura dos seus. Aos poucos, sossegavam uns e começava a ouvir-se o choro e os gritos daqueles a quem um ente querido fora atingido. A Festa tinha acabado ali.

Em vez da música e do troar dos foguetes, um silêncio pesado. Em vez do riso e da alegria, o pranto e a dor amassados em lágrimas. Em vez do Adeus ao Senhor dos Aflitos, o adeus aos que morreram.

A fé dos homens não foi abalada e a Misericórdia de Deus foi reconstruída.

publicado por julmar às 05:57
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