Vai para vinte anos que bem me afligia por ninguém estar a fazer nada pelo interior do país, por o deixarem numa agonia lenta. O pouco que fizeram foi no sentido errado.
“Hão-de vir pelo S. Brás, um dia pr’a frente ou um dia pr’a trás”
Da variada e abundante fauna por aqui existente, uma não é possível esquecer - a cegonha. Entrou no imaginário colectivo e, durante muitos anos, puderam os pais contar aos filhos que os interrogavam sobre os mistérios da vida, ou mais prosaicamente, sobre a chegada de um novo hóspede à família que, na maioria das vezes, já tinha de abonda.
Não sabemos das razões que levaram a sabedoria popular à esta escolha mas, se tivéssemos de escolher, que outra escolha melhor? Todos os anos partia para muito longe, voando muito alto, para, passados nove meses, regressar em época fixa, ao mesmo lugar. Regressava com a vida dentro de si para criar, na época em que toda a Natureza cria - a Primavera. Quem se lembra do seu elegante andar ao longo dos verdes prados? Quem se lembra da maneira como alimenta e protege os filhotes ou, como, chegado tempo, os incita a sair do ninho para ensaiar o próprio voo?
Um dia partiram para nunca mais. Para lembrar, apenas, os restos do ninho, no alto da torre da igreja, no tempo em que não havia altifalantes e os sinos tinham o som e o toque do ti Junça, sacristão, que dividia a vida entre tocar os sinos, embrulhar cigarros e fumá-los e um copo na taberna do Aníbal Gata, essa magnífica instituição, onde a vida dos homens se exaltava, dando cumprimento ao que na Bíblia se diz " O vinho alegra o coração do homem e entristece o coração da mulher".
Um ano a cegonha da torre da Igreja deixou de vir. Depois, não veio a do alto freixo das Entrevinhas, nem a do Castelo. Deixou de vir a da Balsa. Deixaram de vir todas e foi um anúncio de morte. Não houve mais bebés. Secaram as figueiras, primeiro, e as cerejeiras depois. Nos campos, cresciam as plantas boas com as más, mas estas eram mais fortes e roubavam-lhes o alimento, a luz, o calor...a vida. Chegado o estio, vinha o fogo que devorava as plantas, as más e as boas. Às vezes, havia um lavrador mais teimoso, ou distraído da mudança dos tempos, e semeava a tapada de pão. Porém, chegado o S. Brás, as cegonhas não vieram. Olhou as tapadas dos seus vizinhos e estavam ao abandono A presa secou muito antes do tempo. Nos rios e ribeiros, corre cada vez menos água que já não vivifica coisa alguma. As casas que, antes, estavam sempre abertas, agora estão sempre fechadas, quase todas. No campo, só já as cigarras cantam. As fraugas apagaram-se e as bigornas emudeceram. Não há rondas, nem aguguios, nem choradeiras. As almas já não há quem as encomende e, qualquer dia, não há quem enterre os corpos. E os triteiros? E as bugalhadas? E os jogos (a Chona, a Caganita-Rita, a Fustigada, o Corcho Lorego, a Arraoila, o Crasto, o Carambolo, à Lua sai que agarra)? Nos caminhos, o lavrador teimoso, não encontrava carava. De França, o seu compadre não parava de mandar francos. O lavrador, teimoso, foi-se embora para junto do compadre e, chegado o Estio, a tapada do pão ficou à espera dos ceifadores que nunca chegaram. As eiras ficaram vazias e os manguais parados. Os moinhos viam a água passar, inutilmente, e os fornos deixaram de cozer. A Escola, onde se conjugava o passado, o presente e o futuro, virou museu onde se recorda o passado. A lei da vida é a mudança, mas a vida deixou de morar aqui.
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